RIACHO DE SANTANA - SEU PASSADO E SUA HISTÓRIA

 

Universidade do Estado da Bahia - UNEB/Campus VI

Departamento de Ciências Humanas – DCH

Colegiado de História

 

 

 

CÉLIO LESSA DA SILVA

 

 

A tríade Patrimônio-Capela-Arraial no alto sertão baiano: Vivências no “acabamento da Capella de Nossa Senhora da Glória erecta no Arraial de Riacho de Sant’Anna” (1844 a 1866)

 

 

 

 

 

 

Caetité

2015

 

 

CÉLIO LESSA DA SILVA

 

 

A tríade Patrimônio-Capela-Arraial no alto sertão baiano: Vivências no “acabamento da Capella de Nossa Senhora da Glória erecta no Arraial de Riacho de Sant’Anna” (1844 a 1866)

                                                                                     

 

                                                                                                     Monografia apresentada ao curso de História, na disciplina Pesquisa Histórica IV, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e requisito básico para a obtenção do título de Licenciado em História.

                                                                                                     Professora Orientadora: Esp. Fernanda Oliveira Matos

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                          

 

Caetité

2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SILVA, Célio Lessa.

A tríade Patrimônio-Capela-Arraial no alto sertão baiano: Vivências no “acabamento da Capella de Nossa Senhora da Glória erecta no Arraial de Riacho de Sant’Anna” (1844 a 1866)

62.p

Orientadora: Prof.ª Esp. Fernanda Oliveira Matos

 

Monografia de conclusão de graduação em História – Universidade do Estado da Bahia – Campus VI, 2015.

 

1. A tríade Patrimônio-Capela-Arraial no alto sertão baiano: Vivências no “acabamento da Capella de Nossa Senhora da Glória erecta no Arraial de Riacho de Sant’Anna” (1844 a 1866). I. Universidade do Estado da Bahia. II. SILVA, Célio Lessa. III. Título

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aprovado em: ______/______/______ 

                                                                             

Banca Examinadora:

________________________________________________

Prof.ª Esp. Fernanda Oliveira Matos

(Orientadora)

________________________________________________

Prof.º Me. Antonieta Miguel

(Examinador)

_________________________________________________

Prof.º Me. João Reis Novaes

(Examinador)

 

 

EPIGRÁFE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Se eu fosse antiquário, só teria olhos para as coisas velhas. Mas sou historiador. É por isso que amo a vida.” Essa faculdade de apreensão do que é vivo, eis justamente, com efeito, a qualidade mestra do historiador. (BLOCH, 2001, p.65).

 

 

DEDICATÓRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                          

 

                                                            A todos os riachenses, pessoas que merecem conhecer um pouco de sua História, em especial aos Paroquianos da Igreja Nossa Senhora da Glória.

 

 

AGRADECIMENTOS

Agradeço a todas as pessoas que contribuíram para o desenvolvimento desta pesquisa seja com palavras de incentivo ou pelo simples interesse na temática. A Prof.ª Esp. Fernanda Oliveira Matos registro meus sinceros agradecimentos pela orientação segura e pela confiança depositada nesta pesquisa desde as primeiras conversas.

            Também gostaria de agradecer todos os professores do curso de História da UNEB Campus VI, que de alguma forma contribuíram para o meu aprendizado, em especial a Prof.ª Ms. Antonieta Miguel orientadora de Estágio Supervisionado e a Prof.ª Ms. Lielva Aguiar pela suas orientações e sugestões na disciplina Pesquisa IV.

A meu amigo Sebastião Magno pelas sugestões recebidas, com o seu contagiante comprometimento com o fazer história permanece como estímulo intelectual.

Ao Prof. Alan Figueiredo da cidade de Macaúbas que gentilmente me entregou uma cópia do livro de sua autoria e que versa a respeito da história da Paróquia de sua cidade; como também me cedeu algumas informações úteis de sua pesquisa no APEB, agradeço imensamente pela sua contribuição.

Aos padres da Paróquia Nossa Senhora da Glória, Padre Isaias e Padre José Rocha pela permissão para transcrever as Atas do Apostolado; ao grande intelectual o Padre João Jaccheta (in memoriam), pelas contribuições recebidas, quando falava: “Filho você vai fazer um ótimo trabalho...”; uma perda inesperada de um homem que sempre lutou por melhorias na vida religiosa e social da cidade, admirava-o pelo seu posicionamento político-ideológico, e sobretudo pelo seu grande comprometimento contra as injustiças sociais.

Agradeço todas as pessoas que me cederam um pouquinho (às vezes horas) de sua atenção para uma conversa informal, algumas não estão entre nós como D. Odília (in memoriam) e o ex prefeito Dr. João Laranjeira (in memoriam) que passamos horas conversando, contribuindo imensamente para meu conhecimento.

            A Marisa e Marilu, que também me cederam algumas fotos; A Graças Flores e D. Lurdes minha predileta contadora de história, sempre que preciso vou até ela; a secretária da Paróquia Simone pela sua gentileza.  A meu amigo Edivaldo que gentilmente fez meu “abstract”.

A minha turma de História 2010.1, foram quatro anos juntos, momentos que jamais esquecerei, pela a convivência, aprendizado e as angustias, pois nem tudo são flores. Não tive panelinha como os outros, mas tenho admiração por cada um deles, pessoas batalhadoras que aprendi muito. Agradecerei em especial a Elvano, Odilene e Marcos, que foram pessoas de fácil convivência. E todas as amizades que fiz na UNEB Campus VI Caetité, estudantes e funcionários, sou muito grato.

As pessoas do “carro de Riacho” passamos por muitas aventuras, emoções e aflições nas estradas, mas foram momentos que levamos para vida toda. 

Às duas equipes do Programa Institucional Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), com quem tive a oportunidade de trabalhar nestes dois anos e meio de Projeto, cada experiência foi única e maravilhosa. Contribuiu imensamente na questão financeira que me possibilitou estudar em tempo integral.

Agradeço também a todos os integrantes da Pastoral da Juventude, grupo que participo há muitos anos, que me ajudou a ser simples e conviver em grupo, aos paroquianos da Igreja Nossa Senhora da Glória, essa pesquisa é também para vocês.

A fundação Sinésio Cirino da costa, ex-colegas e professores, onde funcionou o cursinho Pré-vestibular – Universidade para Todos, no tempo que lá estudei (2008 e 2009) me possibilitou a ser estudante de História.

A minha família que teve paciência e me ajudou a vencer essa batalha, em especial a minha tia Madrinha Helena, pois sem ela as coisas ficariam impossíveis.

Não foi fácil chegar até aqui, tinha um risco eminente de não conseguir. Agradeço a Deus por me ajudar a superar todas as adversidades ao longo desses anos.

 

 

 

RESUMO:

Esta pesquisa visa discutir a construção da Capela Nossa Senhora da Glória em Riacho de Santana em meados do século XIX no sertão baiano, e como ela influenciou na formação do arraial e da freguesia, sob a tríade “patrimônio-capela-arraial”. Tangenciando esta perspectiva, vamos dá ênfase na doação do terreno e principalmente no “Acabamento da Capella Nossa Senhora da Glória no Arraial de Riacho de Sant’ Anna” no recorte temporal do ano de 1844 a 1866, cuja fonte principal de pesquisa histórica foram as Atas do Apostolado da oração. Neste contexto, as reformas da capela vive realidades distintas, entre elas: Tangencia o ano de 1844 até estar pronta para as celebrações eucarísticas no ano de 1853; dez anos depois, foi necessário o padre chamar as pessoas da Freguesia para a necessidade de fazer outras reformas, que continuaram ultrapassando o ano de 1866; ressaltando, neste contexto, a instituição da paróquia e freguesia Nossa Senhora do Rosário em 1862, mostrando a forte influência que a igreja católica tinha no sertão.

Palavras-chave: Religiosidade. Sociabilidade. Doações para a construção

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ABSTRACT:

This research aims to discuss the construction of the Chapel of Our Lady of Glory in Riacho de Santana Creek in the mid-nineteenth century in the Bahian backlands, and how it influenced the formation of the camp and the parish, under the "equity-chapel-camp" triad. Tangential to this perspective, we emphasizes the donation of the land and especially the "Finish Capella Our Lady of Glory in the Camp of Sant Creek 'Anna" in the time frame of the year 1844 to 1866, whose main source of historical research were the Minutes the Apostleship of prayer. In this context, the Chapel reforms live different realities, including: Tangency 1844 until ready for Eucharistic celebrations in 1853; ten years later, the priest was necessary to call the people of the parish to the need to make other reforms, which continued to exceed the year 1866; stressing in this context the establishment of the Parish and parish Our Lady of the Rosary in 1862, showing the strong influence that the Catholic Church had in the backcountry.

Keywords: religiousness. Everyday. Donations for construction

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LISTA DE FIGURAS

Figura 01: Fotografia do Mapa da Capitania da Bahia século XIX.......................................................22

Figura 02: Fotografia da praça da Matriz Nossa Senhora da Glória do início do século XX................26

Figura 03: Fotografia da praça da Matriz Nossa Senhora da Glória do início do século XX................27

Figura 04: Fotografia da construção de uma igreja, provavelmente da matriz de Riacho de Santana no século XIX.........................................................................................................................................44

Figura 05: Fotografia da atual matriz de Nossa Senhora da Glória, de Riacho de Santana................45

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LISTAS DE TABELAS

Tabela 01: Doações em dinheiro para o acabamento da Capela Nossa Senhora da Glória em 1851.......................................................................................................................................................37

Tabela 02: Arrecadações para a obra da Igreja de 1863.....................................................................41

Tabela 03: Arrecadações para a obra da Igreja de 1865.....................................................................42

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO......................................................................................................................................12

1.0 A presença da Igreja Católica em terras brasileiras e baianas..................................17

2.0 A doação do terreno à Nossa Senhora da Glória........................................................18

2.1 O terreno sagrado.............................................................................................................23

3-O cotidiano no “acabamento da capela Nossa Senhora da Glória erecta neste arraial de Riacho de Santa’ Anna....................................................................................................26

3.1-Os trabalhos na construção..............................................................................................29

3.2- A participação dos escravos............................................................................................30

3.3-As arrecadações e esmolas.............................................................................................31

3.4 A importância dos leilões nas construções de capelas..................................................33

3.5-Últimas arrecadações para Abertura das celebrações.....................................................34

3.6- A sagrada necessidade que havia de reparo e acabamento dos serviços da Igreja Matriz em 1863.......................................................................................................................36

3.7- As cobranças dos bens pertencentes à Igreja (1863 a 1866).........................................38

3.8 -A criação de gado sob tutela da Igreja............................................................................39

3.9- A mudança de padroeira e a criação da Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana..................................................................................................................................40

Considerações Finais......................................................................................................................................46

Referencias Bibliograficas...................................................................................................48

Anexos...................................................................................................................................68

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTRRODUÇAO

A princípio, é importante ressaltar nossa trajetória durante a realização desse trabalho de pesquisa. Inicialmente, o objeto de investigação seria outro, pesquisar a trajetória política do Monsenhor Tobias no alto sertão, assim foram encontradas fontes no Arquivo Municipal de Caetité de extrema importância; as conversas informais de pessoas da cidade de Riacho de Santana[1] foram muito instigantes, enfim, são lacunas a serem preenchidas.

O que me levou a mudar de objeto de pesquisa, foi quando um amigo Historiador Sebastião Magno me apresentou um livro de atas da secretária da Paróquia nossa Senhora da Glória de Riacho de Santana, chamado de “Atas do Apostolado”, ao ler as primeiras páginas, percebi que se tratava de um documento valioso de extrema importância para o conhecimento histórico da sociedade riachense. Tal documento tem um corte temporal de 1844 a 1866, contemplando informações que relatam o “acabamento da Capella Nossa Senhora da Glória”. Na primeira página fica evidente o objetivo daquele registro quando o redator afirma:

Este livro de secenta folhas as quais rubricadas com assinaturas rubricadas{...} e há de servir para nelle se escrever as atas das sechioens que referirem a bem do acabamento da capella da obra da Glória em ereção nesse arraial do Riacho de Santa`Anna , e eleva no fim inserramento do arraial. (Atas do Apostolado 21 julho de 1844).

Como foi exposto fica claro a função dessas Atas. É sabido que alguns trabalhos com Atas estão sendo desenvolvidos, apontando e desvendando possibilidades de pesquisa com essas fontes de várias instituições, como as Atas de Câmara Municipal, apesar de sua condição de fontes oficiais e de constituírem um suporte documental restrito ao âmbito político-administrativo, constituem importante fonte de análise da dinâmica interna da sociedade, sobretudo quando relacionamos, entrecruzamos e confrontamos as informações, nelas explícitas ou implícitas, com outros tipos documentais. Destacamos sua utilização como importante fonte documental em muitas pesquisas recentes, tais como as de Carina Martyny (2013, p.2): 

Cabem, no entanto, algumas considerações acerca desta fonte documental. Três importantes aspectos precisam ser discutidos quando tomamos as Atas como fontes de pesquisa histórica: seu caráter de fonte oficial; a necessidade de utilizar uma metodologia de análise baseada no cruzamento de informações com outras fontes; e, a necessidade de uma análise que apreenda não somente o conteúdo explícito destas fontes, mas também o que nelas está implícito. 

Já destacamos que essas fontes documentais são imprescindíveis para a pesquisa histórica, partindo, para tanto, da ideia de que não são os documentos em si que caracterizam o resultado de um trabalho historiográfico, mas sim o manejo e a interpretação que o historiador faz destes, o que está diretamente dependente da postura teórico-metodológica por ele assumida.

Os documentos de tombos são essenciais para uma pesquisa histórica, neste viés as fontes encontradas na secretária da Paróquia Nossa Senhora da Glória são ricas em informações do século XIX.  As atas do Apostolado mostram uma organização qualificável, contendo dois regulamentos de tempos distintos, um do ano 1844 e outro 1863 (mais extenso) para ser seguido por todos, o que parece ser um documento presente em outras construções de capelas. Foram eleitos os representantes, sendo que para alguém ser escolhido, evidentemente tinha que ser um homem de reconhecível idoneidade e dotes administrativos, assim como estabelece uns dos artigos:

7º- Propor pessoas idôneas e inteligentes para administradores dos serviços da obra da Igreja os quais prestarão contas dos dinheiros que houverem recebidas para despenderem-nos diversos ramos do serviço da mesma obra. (Regulamento de base das Atas do Apostolado , abril de 1863).

 É visível que as pessoas mais humildes eram excluídas das decisões dos trabalhos da capela; e um outro detalhe importante é a pouca representatividade das mulheres, enfatizamos que não havia nenhuma assinaturas femininas, os participantes das reuniões eram majoritariamente do sexo masculino. E embora essas pessoas fossem excluídas do poder, elas foram muito importante para o erguimento da obra, principalmente por seus dotes com leilões.

Com as entrevistas obtivemos informações importantes, uma delas a respeito da existência do documento da doação do terreno para construir a capela Nossa Senhora da Glória, que seria muito valioso para minha pesquisa se conseguisse ter acesso a ele. Enfim, as pessoas que cuidam desse patrimônio não deixaram vê-lo, talvez por falta de interesse com a História da cidade, alegando que juridicamente não é permitido a consulta e a publicação desse documento. Entretanto não é o único, existem outros muito importantes na perspectiva historiográfica, que na visão dos padres podem comprometer a Igreja.

A construção de muitas capelas no século XIX fez parte do modelo “patrimônio-capela-arraial” e, portanto, parece explicar a origem de centenas de arraiais, vilas e cidades brasileiras desde o período colonial, particularmente por justificar o acesso à terra pelos primeiros colonos nos locais onde a autoridade municipal ainda não tinha se estabelecido para exercer suas atividades administrativas[2]. É inconteste a forte presença e influência das igrejas na paisagem urbana. Trata-se de um fato característico em nossas cidades. Uma realidade que trazemos conosco enquanto representação do poder da Igreja Católica em sua estreita relação com o Estado e, principalmente, a influência dessa relação na dinâmica da estruturação da cidade.

Essa forma de ocupação do espaço, religiosamente há significado místico, pois para o homem religioso, o espaço não é homogêneo: o espaço apresenta rupturas; há porções qualitativamente diferentes. Historicamente o objetivo deste trabalho não é discutir o espaço sagrado de forma abrangente, entretanto é necessário falar suscintamente para entendermos os significados simbólicos da construção de um templo religioso-católico.

Segundo Eliade,(1992, p.34) arquitetura sacra não faz mais do que retomar e desenvolver o simbolismo cosmológico já presente na estrutura das habitações primitivas. Quando a habitação humana, possuía cronologicamente um “lugar santo” pelo espaço provisoriamente consagrado e cosmizado. Isso é o mesmo que dizer que todos os símbolos e rituais concernentes aos templos, às cidades e às casas dependiam, em última instância, da experiência primária do espaço sagrado. Esses simbolismos cósmicos do espaço e o templo sagrado, representam o centro do mundo (imago mundi):

Lembremos o essencial do problema: se o Templo constitui uma imago mundi, é porque o Mundo, como obra dos deuses, é sagrado. Mas a estrutura cosmológica do Templo permite uma nova valorização religiosa: lugar santo por excelência, casa dos deuses, o Templo ressantifica continuamente o Mundo, uma vez que o representa e o contém ao mesmo tempo. Definitivamente, é graças ao Templo que o Mundo é ressantificado na sua totalidade. Seja qual for seu grau de impureza, o Mundo é continuamente purificado pela santidade dos santuários. (ELIADE, 1992, p.34)

Portanto de acordo com a cosmologia a Igreja de Nossa Sr.ª da Glória se constitui, portanto, um elo de ligação entre o céu e a terra, entre o humano e o sagrado, constitui um “imago mundi” (centro do mundo). Situa-se geograficamente em um ponto alto da cidade de Riacho de Santana para ser visualizada com mais esplendor, a baixo passa o Rio Santana, no horizonte visualiza-se serras e morros.

Hoje a Igreja Nossa Senhora da Glória é um lugar de memória para os habitantes da cidade, nos seu aspecto panorâmico, cultural, religioso, enfim patrimônio cultural e material-edificado que merece por todos o cuidado. Aqui entendemos por patrimônio cultural, o mesmo estabelecido pela Constituição brasileira afirma:

 Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente em conjunto, portadores de referencia a identidade, a ação, a memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

                          [...]

  IV- as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados as manifestações artístico-culturais;

 V- os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e cientifico (Constituição Federal 1988).

E possível notar que o patrimônio cultural, seja o material ou imaterial, é protegido como direito social pela Constituição Federal de 1988, sendo assim destaca Mesentier (1999, p.11), podemos pensar o patrimônio cultural edificado como um suporte da memória social, ou seja, os edifícios e áreas urbanas de valor patrimonial podem ser tomados como ponto de apoio da construção da memória social. Como estímulo externo que ajuda a reativar e reavivar certos traços da memória coletiva em formação sócio territorial.

É importante enfatizar que a padroeira da paróquia do período (1861-1906) foi Nossa Senhora do Rosário, embora também existisse o culto a Nossa Senhora da Glória.  Para modificar e reverter o erro, segundo memorialistas, no ano de 1906 o padre (Não podemos afirmar se foi o Monsenhor Tobias falecido no mesmo ano) e os fiéis fizeram uma petição ao arcebispo, para trocar de padroeira, sendo justo à Nossa Senhora da Glória, Santa a quem o casal Manoel José e Rosa messias doaram um terreno em 1827 para construir a capela e homenageá-la. 

As fontes utilizadas foram tratadas à luz da História Social e da micro história que, como afirma LEVI (2000), se constitui um procedimento analítico que busca extrair das fontes históricas as verdades nelas ocultas[3]. E para atingir tal objetivo, e organizar didaticamente o texto, dividimos este trabalho em três partes que, por sua vez, estão organizados em tópicos.

Na primeira parte abordaremos a presença da Igreja em terras brasileiras e tangenciando o Clero na Bahia no século XIX e XX, para melhor penetrarmos na construção da Capela Nossa Senhora da Glória em Riacho de Santana.

Na segunda parte da pesquisa, vamos falar da doação do terreno para construção de uma capela, abordaremos o aspecto cosmológico do espaço sagrado, e dizer da importância da tríade patrimônio-capela-arraial, portanto, esse ato da construção de uma capela em homenagem a um santo, obrigava os fiéis a constituírem uma renda necessária ao sustento da referida capela pagando uma taxa anualmente (taxa de aforamento), essa prática foi importante para criação de várias vilas e freguesias no interior da Bahia e de Minas Gerais.

Por fim na última parte, por sinal a maior, abordaremos o acabamento da capela, relatando detalhadamente quem foram os principais responsáveis para o erguimento da obra, citando as quantias de dinheiros e outros materiais doados pelos fiéis. Enfim vamos falar também da instituição da paróquia Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, marcando, portanto a troca de padroeira.

 

Cap. 1.0 A presença da Igreja Católica em terras brasileiras e baianas

Para entendermos melhor as transformações sofridas com a construção desse patrimônio material e cultural edificado em Riacho de Santana, é necessário conhecer um pouco da Igreja católica no Brasil, especificamente no sertão onde se encontrava a capela e hoje Igreja Nossa Senhora da Glória.

Com a chegada dos portugueses às terras brasileiras, traz junto com o processo colonizador a Igreja Católica-Apostólica Romana, uma Instituição religiosa de grande presença social, política e cultural no Brasil, a princípio preocupa-se também com a evangelização indígena. Nesta perspectiva Riolando Azzi fez a seguinte observação:

                                        “A colonização significava o transplante para a nova terra dos padrões culturais da civilização lusitana; e como essa civilização tinha conotação especificamente católica, colonizar significava também implantar a fé católica” (AZZI, 2001, p.21).

Até meados do século XVIII, o Estado controla a atividade eclesiástica na colônia por meio do padroado régio. Arca com o sustento da Igreja e impede a entrada no país de outros cultos, em troca de reconhecimento e obediência.

O Estado nomeia e remunera párocos e bispos e concede licença para construir igrejas. Confirma e executa as sentenças dos tribunais da Inquisição, controla o comportamento do clero pela Mesa de Consciência e Ordens (órgão auxiliar do Conselho Ultramarino). E mantido e Dirigido pelo rei de Portugal, o Clero brasileiro manteve-se sem autonomia e dependência, permaneceu isolado de qualquer contato com Roma até a década de 1820.

 Com a romanização da Igreja Católica e a sua atitude Ultramontana em meados do século XIX que estava em defesa do poder e prorrogativas papais em matérias de disciplina e fé, chegando ao Brasil nas décadas de 1860 e 70, a santa Sé decretou regras mais rígidas de doutrinas e culto, como por exemplo, a expulsão das ordens católicas de maçons, isso levou os Bispo Dom Macedo e Dom Vital, de Belém e Olinda respectivamente, a uma briga religiosa com o Estado que não atendia suas vontades, tendo como consequência a prisão dos dois em 1875. Mas tarde definitivamente por esses e outros motivos o estado dá por encerrado o Padroado Régio. (MATTOSO, 1986, p. 298).

A crise no clero brasileiro, fez a instituição perder alguns poderes, mas ainda assim, possuía forte influência ideológica e política na sociedade, contribuindo para formação de muitas cidades, através de suas muitas missões, principalmente no interior. Com o fim do padroado em 1890 a igreja passou a não depender mais do estado, mas em contrapartida não dividia as contribuições que recebia dos fiéis, e também de todos os bens, como as terras que ficaram nas mãos da instituição.  

A arquidiocese de Salvador estava entre as maiores do Brasil, abrangendo também os estados de Alagoas e Sergipe, cada uma com a sua própria diocese, nesta imensa área, existiam ao longo do século XIX, várias igrejas e capelas, o clero não era suficiente para atender todos os fiéis, que no sertão, muito frequentemente a cerimônias eucarísticas eram realizadas através de missões, lideradas as vezes sob a liderança de leigos de maior compromisso com a fé católica, denominados irmãos, monges e beatos. Foi nesse momento de crise da igreja católica, que foram criadas várias paróquias no interior baiano, como a de Nossa Senhora do Rosário 1861, na cidade de Riacho de Santana.

Com o aumento de Paróquias e de fieis no interior baiano, foi necessário descentralizar as decisões do clero, pois apenas um arcebispo não conseguiria tomar todas as decisões. Portanto, esses fatores levaram o Arcebispo de São Salvador D. Jerônimo Tomé da Silva, a encaminhar ao Papa Pio X uma solicitação para criar novas dioceses no território baiano sob sua jurisdição; e após exame e aprovação pelo Núncio Apostólico no Brasil e pelo Colégio dos Cardeais, enfim, foi assinada pelo Papa em 13 de outubro de 1913, criando as Dioceses de: Barra, Caetité e Ilhéus.

Cap. 2.0 A doação do terreno à Nossa Senhora da Glória

No período colonial toda essa área do sertão se constituía um grande latifúndio, não eram terras sem dono, pertencia a poucas pessoas, que nem sabiam as verdadeiras dimensões. Com as capitanias Hereditárias, D. João III transferiu para o Brasil, em 1534, o regime jurídico de repartição fundiária das Sesmarias. Esse estatuto jurídico medieval permitiu a formação de imensos latifúndios durante a colonização lusitana. Segundo Neves (1998 p.54) este morgado era uns dos maiores do Brasil, vinculava parcialmente ao morgado Guedes de Brito, instituído no século XVII, por verba testamentaria do tabelião Antônio de Brito Correia e sua mulher Maria Guedes. Em poder do filho Antônio Guedes de Brito esse patrimônio fundiário expandiu imensamente, somente foi superado em extensão, as terras da Casa da Torre, domínio dos descendentes de Garcia D’ Ávila, seus rivais, que se estendiam por zonas atualmente sob jurisdição de vários estados nordestinos.

O projeto econômico de colonização dos portugueses, havia uma justificativa religiosa (lembremos a primeira missa e a demarcação de terras por uma cruz) Nesta perspectiva, Colonizar era portanto, implantar a fé católica, é o que vem dizer Gilberto Freire no seu livro Casa-grande e senzala:

O Brasil formou-se, despreocupado os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça. Durante quase todo o século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando as autoridades coloniais que fossem de fé ou religião Católica. Handelmann notou que para ser admitido como colono do Brasil no século XVI a principal exigência era professar a religião Crista: “somente cristão”- e em Portugal isso queria dizer Católicos “podiam adquirir sesmarias”. “Ainda não se opunha todavia” continua o Historiador Alemão, “restrição alguma no que diz respeito a nacionalidade: assim católicos estrangeiros podiam emigrar para o Brasil e ai se estabelecer-se[...] (FREIRE, 1983, p.29).

Sobre a demarcação de terras e a exploração em lugares até então desconhecidos, Erivaldo Fagundes Neves (1998, p.20) relata que em meados do século XVII, a colonização portuguesa mantinha-se ainda limitada a uma estreita faixa ao longo do litoral, com avanços próximos de 10 léguas para o interior, nas margens dos rios. A secura do semiárido forçava aos que por ele aventurassem, a marcharem pelas bordas dos cursos d’agua. Nesse movimento, estabeleceram-se fazendas de gado no curso médio do São Francisco, apossado, à esquerda, por Francisco D’Avila e a direita por Guedes de Brito, com o extermínio, expulsão ou assimilação sociocultural dos povos indígenas.[4]

Na maioria dessas sesmarias, os grandes proprietários rurais possuíam em seus domínios uma capela para a prática do culto católico. Houve senhores de engenho que construíram verdadeiras Igrejas, em edifícios espaçosos e situados a pouca distância ou então anexo à casa grande. A capela Nossa Senhora da Glória não pertencia a essa realidade, mas percebe-se que nesse arraial havia muitos proprietários de terras, empenhados em construir um templo, uma instituição de caráter religioso para expressar a fé católica de seus fundadores.

A formação das cidades no interior do Brasil tem forte ligação econômica e religiosa, por exemplo, em Minas Gerais especificamente, Sérgio da Mata vai perceber duas dinâmicas distintas que estão na base dos processos de formação das cidades. São dinâmicas interdependentes, mas que mantém especificidades visíveis. Em primeiro lugar temos os arraiais e vilas formadas em função de processos sociais decorrentes da exploração do ouro em Minas Gerais no século XVIII. É claro que a formação das localidades mantinha estreita relação com a atividade extrativista mineral. Em segundo lugar temos a formação de localidades em função do processo de “ruralização” da sociedade mineira, processo este que se acentuou com a diminuição da atividade mineira, mas que coexistiu com os arraiais de origem mineradora. Esta segunda forma de ocupação está intimamente vinculada à prática de fazendeiros em estabelecer um “patrimônio”, ou seja, um pedaço de terras ou uma doação em dinheiro, que serviriam para a construção de capelas e para a sua posterior manutenção. Para Mata, o início das cidades mineiras foi dependente da equação patrimônio-capela-arraial, uma vez que a prática comum é que a população se fixasse nos patrimônios doados para as capelas e dali surgissem as vilas e, posteriormente, as cidades. Por esta razão é que o autor chama a atenção para o fato de que os patrimônios que deram origem aos arraiais e às vilas foram os constituídos por doação de terras.

Riacho de Santana[5] era um arraial no início do século XIX, com poucas casas, divididas em sítios ou fazendas, a princípio pertencia à Monte Alto, tinha uma aglomeração significativas de pessoas, necessitando de uma capela para celebrações católicas. Na região algumas vilas já possuía uma capela para professar a fé católica, como: Macaúbas, Santa Clara, Santo Antônio do Urubu (Paratinga), Caetité e Monte Alto, dentre outras, que por sua vez, foram erguidas com o mesmo propósito da gênese patrimônio-capela-arraial[6]. No mapa, podemos perceber as principais vilas e arraiais do século XIX:

Mapa: Capitania da Bahia. Fonte: NEVES, Erivaldo Fagundes Neves. Uma Comunidade Sertaneja da Sesmaria ao minifúndio (um estudo da história regional e local). Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia. Feira de Santana, 1998.

Este modelo capela-patrimônio-arraial parece explicar a origem de centenas de arraiais, vilas e cidades baianas, embora os primeiros aventureiros ao chegarem viessem a busca de riquezas minerais. O ato de construção de uma capela em homenagem a um santo obrigava os fiéis a constituírem uma renda necessária ao sustento da referida capela. Ele poderia ser composto por doação de terras, bens móveis, rendas ou dinheiro. No caso da terra, ela servia não só para a construção de templos, cemitérios e adros, mas, também, como fonte de renda por meio de arrendamento a particulares. As pessoas poderiam ocupar essas terras, desde que pagassem uma taxa anual (foro) ao administrador da capela, residindo perto do templo e formando uma pequena povoação ou arraial.[7] Realidade presente também em Riacho de Santana, é visível nas “Atas do acabamento da Capella Nossa Senhora da Glória”.

Em relação às terras doadas à Santa para construir uma capela, as “Atas do acabamento da Capella”, especificamente no regulamento de 1863, em uns dos artigos, há referências da posse do terreno de Nossa Senhora da Glória, que estava ocupado por casas e sítios, cobrando uma taxa anual a título de aforamento, como está escrito:

                                      6° - Tomar conhecimento do terreno doado á padroeira, e por comissão especial nomeada pelo presidente da meza, conhecer da porção do terreno ocupado com as casas deste arraial , quintões , ou chácaras independente desta, tanto dentro com fora do povoado , e marcar-lhes uma quantia regular à título de aforamento por braça de frente , a qual será anualmente paga pelos foreiros , e aplicada para andamento dos serviços da obra da Igreja.

                                      [...] Nomeiou –se uma comissão composta dos senhores mesários Antônio Pereira Castro e Joaquim Mauricio de Carvalho , para darem conhecimento do terreno Ocupado cazas Quintões dentro e fora d arraial , e depois de fazerem medir –lhes as frentes , imporão aos proprietários o fôro de cem reis braça, anualmente, e passou unanimidade.(Regulamento de base das Atas do Apostolado , abril de 1863).

Percebemos, portanto, que o terreno pertencia à padroeira, e de acordo com memorialistas, no dia vinte e dois de abril de 1827, Manoel José Alves Cabral e sua mulher Rosa Messias da Rocha, doaram um terreno para construir uma capela para homenagear a Nossa Senhora da Glória[8], fica claro que esse terreno eram locados a pessoas pagando uma taxa anual. A construção da primeira capela, teve início provavelmente em 1840, pela iniciativa do Frei Paulo, no mesmo local onde está edificada a atual Matriz.

Nas primeiras folhas das atas de 1844 mostra essas pessoas citadas, que foram decisivas para o erguimento da capela, com a doação do terreno (1827) e a iniciativa das obras (1840). É provável o doador das terras para construir a capela, esteve presente em duas reuniões, na pessoa de Manoel Alves Cabral:

                                       [...]o senhor Presidente passou anunciar huma comissão de quatro membros, para darem separecer, arespeito das(...) essa comissão nos lida em José Correa da Silva, Manoel José Alves Cabral, Pedro Felipe e Domingos Jose da Silva Pimentel, os quais vinda a examinar a obra, a respeito das referidas e madeiras,[...]  (Atas do Apostolado 21 de julho de 1844).

                                       [...]nomeando a meza os senhores Rodrigo Dantas Castro e Belchior Pereira Guedes, agradecer Manoel Alves Cabral, ao discurso prestado a meza e aos assistentes[...] (Atas do Apostolado 15 de agosto de 1847).

Como visto Manoel José Alves Cabral supostamente é o mesmo da doação do terreno em 1827, ele participou das reuniões em 21 de julho 1844 e 15 de agosto de 1847, não foi encontrada qualquer outra citação desse nome, foram as duas únicas, uma especificamente tendo a responsabilidade com as madeiras e outra prestando discurso ao cidadãos, e junto dele vieram mais duas pessoas (assistentes), podemos ver sua influência naquele ambiente de sociabilidade, talvez não morasse tão próximo do arraial, isto é, em Monte Alto (sede) ou em fazendas.

2.2 O espaço Sagrado do terreno

Existem relatos a respeito do espaço geográfico e sagrado do terreno doado, mostrando seus limites, citando quatro cruzeiros que estavam enfincados ao redor da cidade, não sabemos quem e nem porque os colocaram. Curioso e interessado sobre a história da cidade, há alguns anos o Padre Aldo Luchetta[9] entrevistou Seu Deocleciano Castro[10], que disse:

                           “Meu pai dizia que os limites das terras de Nossa Senhora, são os cruzeiros , cruzeiro lá da cadeia, tinha um mato que passa no fundo do cemitério velho e uma reta que vai lá no quintal de Raimundo, de lá ao cruzeiro da Santana, do cruzeiro do caminho ao cruzeiro da lagoa, que lá eu conheci, que era ali na casa de Pacifico na divisão do sitio de Dr. Venâncio , aí eu não sei como ficou”.[11]

Em relação aos limites do terreno doado, existem fontes que mencionam outros fatos, explicitando as ocupações com casas e moradores que pagavam uma taxa anual para se estabelecer. É sabido que existe o documento original datado em 21 de abril de 1827, contendo informações imprescindíveis, mas que não é fácil de ter acesso. O Padre Aldo e outras pessoas tiveram acesso a ele, em uma entrevista com o mesmo senhor citado anteriormente, eles comentaram:

 “Fala aí é que tal problema eu mandei verificar no cartório de Renato e no cartório da Igreja que fala da escritura de Manoel e Maria, casal de Monte Alto que deu esta área a nossa Senhora, e os limites são os seguintes: Está escrito até mandei cópia para Tito[12] na prefeitura para resolver estes problemas, está escrito: Morro do Januário, eu fui pesquisar perguntando os mais velhos para ver onde fica um tem uma vaga ideia e outros dizem deve ser, mas ninguém tem provas certas, fala que o morro fica na estrada do Barreiro Vermelho, depois limite com Itapicuru onde fica aquela capelinha, e limite da Cana Brava terreno de José Gondim, toda essa área da escritura que eu tenho em mãos, é da Igreja toda essa área acredito também fazendo uma análise quando eu cheguei tinha alguns cruzeiros que eu conheci, tinha ainda um e outro mandei concertar que estava para cair e muita gente  não sabia por que os quatros cruzeiros[...]

[...] eu acredito na história deve ter acontecido assim na cidade na época era aqui praticamente pequena deve ter vindo um padre qual foi não sei, na época de missão ele teve ter mandado levantar quatro cruzeiros praticamente abrangendo a cidade.”[13]

Como podemos ver, os fatos se contradizem, os cruzeiros não correspondem com o que diz o documento original da doação do terreno, pelo o que foi citado abrange além do perímetro urbano. Há uma possibilidade desses cruzeiros terem sido colocados para uma missão ou simplesmente demarcação de terreno (posse) e não limites com quatro cruzes, e muito menos uma via sacra como é a tradição católica, com 16 estações e cruzes para a peregrinação.

Na fotografia abaixo é visível um cruzeiro antigo em frente a matriz, mas não correspondem os quatro citados, nota-se também uma praça e principalmente as casas (muitas ainda existem e são centenárias); seus antigos moradores pagavam anualmente uma taxa (foro), há informações que as cobranças foram até o ano de 1936[14].

Figura 02: Fotografia da praça da Prefeitura ou matriz do início do século XX (não sabemos a quem pertence), tinha uma cópia exposta em uma galeria na praça Monsenhor Tobias.

É possível ver também muitos carros, provavelmente existiam muitas pessoas que moravam longe da vila, viam especialmente para comemorar a festa da padroeira, neste contexto, pode-se deduzir que em outros tempos, essas viagens longas eram feitas com outros transportes como os cavalos, essa é uma experiência de fé das pessoas que percorriam quilômetros para devoção de um santo, formando um espaço de sociabilidade.

Há uma outra fotografia (data desconhecida) que mostra o cotidiano e sociabilidade da vila, vimos que ambas apresentam um aglomerado de pessoas, trata-se de uma festa religiosa ou mesmo Junina, é visível pela a ornamentação, destacando-se bandeirolas, há também um palco em frente à uma casa.

Figura 03: Fotografia da praça da Matriz do início do século XX (não sabemos a quem pertence), a cópia estava exposta em uma galeria na praça Monsenhor Tobias.

Todas as casas da atual praça da matriz foram construídas em terreno da padroeira, obviamente todas elas foram erguidas depois da capela, isto é, sob a forma de Tríade (capela-patrimônio-arraial) em meados do século XIX, algumas são do século XX. É perceptível nas fontes encontradas, que por algum motivo os moradores não estava cumprindo com os seus deveres, não pagando a taxa anual de “cem reis braça” para construir casas e morar no local.

Cap. 3.0 O cotidiano no “acabamento da capela Nossa Senhora da Glória erecta neste arraial de Riacho de Santa’ Anna”.

                         Naquela época não se fazia alicerce de pedra. Levanta-se a parede com os primeiros blocos de adobe- a fundação- colocados quase a flor da terra, semi-enterrados. Eram largas, extraordinariamente largas as paredes de antanho. Dai a solidez dos edifícios antigos. Era a consistência do tijolo de barro cru equivalia quase que da pedra. {...} adobe, tijolo de barro cru e endurecido pela exposição do sol [...] (SANTOS,1956 p.).

A maioria das construções do século XIX eram feitas de adobes, ou mesmo de “enchimento” (vara e barro), a antiga capela Nossa Senhora da Glória e a atual matriz são feitas de adobes, barro e cal. Muito provavelmente quem tinha uma renda maior usavam “cal”, ou mesmo óleo de baleia para dar uma liga na massa e resistência as paredes. Embora Santos afirme que nas construções não usavam pedras para os alicerces, é importante dizer que muitas casas utilizavam, pois eram muito importantes para a sustentação das paredes.

Segundo  Kátia Matosso (1986, p.303) a criação de paróquias dependia, em princípio, da vontade do Rei, que tinha obrigação de construir a igreja, orná-la e nomear seu pároco. Mas durante todo o período colonial e imperial a realeza não fez grandes esforços para a criação de novas paróquias, pois acarretava gastos. Portanto elas surgiam por iniciativas dos fiéis, que edificavam e ornavam as capelas com recursos próprios.

A Capela Nossa Senhora da Glória também foi construída com empenho dos fieis moradores do pequeno arraial de Riacho de Santana, com muitas doações em dinheiro, gados e escravos.  Para, por fim, deixá-la pronta para as celebrações eucarísticas no ano de 1853.

Ao longo desses anos, as reformas da Capela viveu realidades diferentes, destacamos especificamente duas, uma que vai do período de 1840 a 1853, neste contexto estava construindo as primeiras paredes, até ficar pronta sem feições de catedral; outro período teve início em 1863 a 1866 na qual o padre Antônio Boaventura Cerqueira Pinto, chama todos os fiéis para urgentemente reformá-la. Período que também foi instituída a Paróquia e formação da freguesia Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, momento que a simples capela vai aos poucos ser tornar uma Igreja.  

Como foi dito, a primeira capela foi construída no mesmo lugar onde se encontra a atual matriz, segundo memorialistas, por iniciativa do Frei Paulo em 1840. Nota-se nos documentos das Atas que já havia paredes de adobes levantadas, chamando os fiéis para o acabamento da capela:

                           Foi nomeada e aprovada outra comissão para rever as paredes, e depois de bem observada disseram que eram necessário da parte sul duas carreiras de adobes e do norte três carreiras e que para isso levaria três milheiros, e telhas mais ou menos dose milheiros. (Atas do Apostolado 21 de Julho de 1844).

E como as primeiras anotações nas Atas foram datadas em 1844, podemos certificar que as informações dos memorialistas são contundentes. Ademais, não há muitas informações da vida e peregrinação do Frei Paulo no arraial, mas é perceptível a sua presença em uma das reuniões transcrita nas Atas do Apostolado:

                            Ao 15 dias do mês de dezembro de mil oitocentos e quarenta e quatro neste arraial de Riacho de Santa”Anna e Capella da Nª Senhora da Glória, reunidos os cidadãos abaixo assinados sob a presidência do senhor Capitão mor José Ribeiro de Magalhaes este declarou aberta a secção compareceu o pe.rev Frei Paulo, e apresentou uma lista devidida em dose classes[...](Atas do Apostolado,15 de dezembro de 1844).

Essa foi a única presença do Frei no arraial (de acordo com as atas), pelo contexto, suponhamos que seria um peregrino percorrendo esse imenso sertão,[15]periodicamente frades percorriam esses longínquos sertões com missões, revivendo a fé católica. Também há presença de outros sacerdotes, como nos dias 8 de setembro e 16 de dezembro do mesmo ano, compareceu à reunião o vigário José de Sousa Lima[16], que também não constatamos sua presença nas atas seguintes, ele pelo visto desempenha algum serviço sacerdotal na região, pois neste período era padre da Freguesia de São José da Carinhanha às margens do Rio São Francisco.

Nos sertões, é bom ressaltar, que desde a era colonial desenvolvera-se um “cristianismo beato” (cf. HOONAERT, 1977, p.121), sob a liderança de leigos desejosos de um maior compromisso com a fé católica, denominados irmãos, ermitães, monges ou beatos, portanto não eram sacerdotes. Na Bahia, as duas maiores dessas figuras foram o ermitão Francisco da Soledade (1657-1722) e fundador, em 1691, do santuário do Bom Jesus da Lapa, origem do segundo maior centro de peregrinação católica do país, na cidade homônima, (vizinha à Riacho de Santana) e outra foi Antônio Conselheiro (1830-1897), que foi líder da comunidade de Canudos, vítimas de um dos maiores massacres da história do Brasil.

Ainda citando a passagem de pessoas na capela com citações nas Atas do Apostolado, (assinaturas no final das reuniões), constata-se a presença de muita gente nas sessões. Que tiveram início em abril de 1844 e terminaram em 1866, havendo várias mudanças, nem todos permaneceram até o fim, entraram novos integrantes e saíram alguns, permanecendo por mais tempo o Capitão Mor José Ribeiro de Magalhães, se ausentando algumas vezes por motivos de saúde. Houve 20 reuniões (7 delas no ano 1844), muitas com intervalos, como a de (1853-1863) quando é feito um novo regulamento. Essas secções que aconteciam no arraial de Riacho de Santana, é notável a presença de homens que possuíam cargos honorários da Guarda Nacional[17] como: Capitão Mor,[18] Coronel, Subdelegado, Major, enfim, de homens que possuíam cargos influentes na sociedade.  

   O Capitão Mor José Ribeiro de Magalhães foi eleito presidente pela a maioria dos votos esteve no cargo até termino das seções relatadas em atas, embora algumas vezes tenha faltado por motivos de doença. Além de um presidente existiram outros cargos, como secretário, tesoureiro, procuradores, cada um tinha seu devido grau de importância, o quadro dos primeiros eleitos ou nomeados ficou assim: Presidente - Capitão Mor José Ribeiro de Magalhaes, Tesoureiros - Theodoro de Almeida Saraiva, 2º Secretario - Major Jesuíno Eugenio de Almeida, Secretários - Major Francisco Manuel da Silva Ribeiro, Procuradores - Capitão Antônio Pereira da Silva, Tenente Timóteo Alves de Oliveira, Joaquim da Costa Viana, José Correa da Silva e o Senhor José da Silva Ribeiro.                                                  

 3.1 Os trabalhos na construção

Percebe-se no livro de atas que há a necessidade e urgência de juntar esforços para cobrir a capela de Nossa Senhora da Glória para não danificar as paredes, quando naquele contexto estava pedindo aos moradores do arraial as madeiras necessárias para o enquadramento, como os caibros e vigas. Depois vieram anunciar uma comissão de quatro membros para conseguir a tal madeiras, composta por: José Correia da Silva, Manoel José Alves Cabral, Pedro Felipe e Domingos José da Silva Pimentel. Na ocasião foram examinar a obra para saber qual era quantidade necessária, deram uma lista ao procurador, e em votação decidiram a mesa para conseguir todas no prazo de vinte dias. Em seguida foi nomeada e aprovada uma comissão para rever as paredes:

 [...] depois de bem observada disseram que eram necessário da                                                           parte sul duas carreiras de adobes e do norte três carreiras e que para isso levaria três milheiros, e telhas mais ou menos dose milheiros. (Ata do Apostolado, dia 21 de julho 1844).

Deliberarao que o procurador ao avista a lista que lhe sera remetida pelo presidente, secretario receba de cada hum dos cidadoens, no prazo de vinte dias as madeiras que cada hum tem a dar, contratando os mestres de carpinteiros que forem necessários para o engradecimento e acabamento[...]

[...] comprar adobes para o acabamento da capela , e atelha necessária             para a coberta não se tractanto , este anno da beira sobre beira[...]  (Ata do Apostolado,  dia 21 de julho 1844).

Esses adobes possivelmente eram feitos próximo ao rio, a poucos metros da construção. O riacho de águas cristalinas com a nascente na comunidade de Santana, frequentemente era usado para o consumo em geral das pessoas que moravam próximas a ele. Para construir a capela com os poucos recursos, o processo foi lento, é notável a preocupação dos coordenadores com o andamento das obras, e realmente as adversidades eram imensas, quando chovia os adobes poderiam derreter, e as paredes danificadas corriam risco de cair e dar prejuízos; na última citação é visível que se tratava de um construção mais modesta, quando cita que naquele contexto que não iria se tratar da beira sobre beira, usadas nas construções de requinte. A preocupação é cobri-la mais rápido possível, como foi deliberado:

[...]que o presidente e secretario apreciassem aos senhores que no dia 7 de abril deste corrente anno prometerão e assinarão seus contigentes afim de cada hum passar as mãos do tesoureiro, fazendo sentir aos mesmos apreciazao que há fazer a coziao de cobrir-se a capella, para evitar a sua perda. (Ata do Apostolado, dia 21 de julho 1844).

Como podemos ver, cita a lista de “7 de abril”, os tesoureiros pedem com urgência ‘cartas e bilhetes contendo algumas verbas prometidas pelas pessoas do arraial’, para assim cobrir a capela evitando a sua perda, isto é, havia paredes levantadas e com as chuvas poderia danifica-las. Embora neste mês não fosse das estações chuvosas é provável que nos meses anteriores tomou muitas chuvas, e chegando o mês de abril e tempo de estiagem, os dias ficaram propícios para concluir os trabalhos da capela.[19]

3.2   A participação dos escravos

Neste tempo, no Brasil existia o trabalho escravo, os negros eram explorados sob regime de escravidão nos mais diversos serviços, entre esses a construção civil. Embora falam-se em contratar trabalhadores para a obra, pesquisas apontam que em Riacho de Santana existiram muitos escravos no século XIX, não encontramos documentos antes dos anos de 1860 na secretária da Paróquia, mas a partir desta data vimos nos registros de batismos e casamentos uma presença muito significativa de negros na região, existem pesquisas que apontam anos anteriores ao 1860 a existência um número considerável da sociabilidade de negros no arraial, provavelmente trabalhando na construção da capela, entretanto é possível que muitos negros fossem pagos. [20]

 Em Riacho de Santana não foi perceptível notar através de registros o número exato de trabalhadores negros na capela sob regime de escravidão ou não. Na ata do dia 18 de abril de 1863, aparecem as únicas citações relacionadas ao trabalho escravo na capela, certamente como dito, houve muita mão de obra escrava além desta:

                           [...]passou a votar em união, o mesário que emprestasse dois escravos, para com a assistência de um dos administradores, procederem ao trabalho de desintulho, aceio e aterro da dita sacristia[...] (Ata do apostolado, dia 8 e setembro de 1863).[21]

Podemos perceber que os trabalhos relacionados são aqueles mais “grossos”, que não exige muita habilidade como os pedreiros, carpinteiros e arquitetos que utilizam medidas e cálculos matemáticos que são feições de um profissional com hierarquia superior na construção civil, no documento não faz referência quem eram esses profissionais (livres ou escravos) somente dos dois chamados de ‘servente de obra’. É sabido que muitos trabalhadores não eram escravos, sim pessoas que recebiam pelo serviço na obra, nota-se portanto, que fala em “providenciar os andaimes e os amarreios e os serventes necessários para o trabalho, recebendo das mãos do tesoureiro a quantia para paga-los”.[22]

A participação dos negros nas cerimônias religiosas é algo que deve ser estudado em outras pesquisas, entretanto, há documentos que citam o envolvimento destes em códigos religiosos do catolicismo em Riacho de Santana em fins do século XIX. A historiadora Maria de Fátima Pires, notou no livro de arquiconfraria de Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus da Matriz, e diz o seguinte:

[...]este livro destina-se ao registro das horas de devoção dos membros da arquiconfraria. Dentre mais de 500 registros do ano de 1886, apenas quatorze eram escravos. Os horários destinados a devoção daqueles, geralmente às cinco horas da manhã, obedeciam as exigências do ritmo de trabalho escravo, além de não torna-los visíveis. Assim, só aparentemente partilhavam de espaço comum com os demais segmentos sociais. (PIRES, 1998, P.79)

Portanto, alguns escravos participavam de cerimonias católicas na Igreja mas havia segregação racial, eles compartilhavam o mesmo espaço para celebrações, entretanto em horários distintos.

   

3.3 As arrecadações e esmolas para a Capela.

Como a Corte e arquidiocese de São Salvador mostravam-se parcimoniosa para a construção de Igrejas do interior da Bahia, as capelas eram erguidas com recursos financeiros dos próprios fieis, provavelmente o bispado tinham informações dessas construções no interior, já que eram enviados religiosos para esses lugares longínquos. Nas atas podemos perceber o quanto as pessoas se empenhavam para ajudar a concluir a capela, com grandes ajuda em dinheiro e gados.

Muitas arrecadações foram anotadas no livro de Atas, como na 3ª reunião (02-11-1844), vieram à apresentar as contas das despesas feitas no cobrimento da capela, sendo o valor de:

                            [...]quinhentos e trinta e cinco, mil novecentos e trinta, e que o novo procurador fes para o trabalho e madeiras, q. sobrarão, ficassem a guarda t’ segunda deliberarão compareceu o senhor Thesoureiro, e apresentando o livro de contas q. sendo examinado achou-se ter ele recebido, no dia 31 de abril a quantia, de quinhentos e vinte e nove, oitocentos e setenta inclusive. Inclusive a quantia comt. da acta antecedente, e dispendido para o procurador da quantia de quinhentos e sincoenta, e dois mil novecentos e de cento que conferindo uma conta apresentada pela mesa, procurador da quantia de quinhentos e trinta e cinco, mil novecentos e trinta, ficou o procurador alcançado na quantia de dezecete mil novecentos e trinta, e Thesouraria e tendo a haver vinte e três mil e oitenta da capella, e deliberou-se q. o procurador passasse as mãos do tesoureiro [...](Atas do apostolado 1º de novembro de 1844).

Podemos perceber nesta reunião: Uma prestação de contas dos procuradores, conseguindo boas arrecadações em dinheiro, nesta especificamente adquiriram das pessoas do arraial a quantia de 17$930, mas os tesoureiros disseram que o necessário seria a quantia de 23$O80, e por essa razão, propôs aos procuradores para adquirir mais verbas para alcançar o propósito. Com a reunião satisfeita, também alertaram do reboque da capela.

No dia 15 de dezembro de 1844 compareceu o Frei Paulo, apresentou uma lista em ‘dose classes’, para ser assinada pelos presentes, multando os ausentes; e como não concluiu o trabalho, por falta de pessoas (de acordo com o regulamento no mínimo dose) ficou adiada para o dia seguinte. Mas também não houve a conclusão dos trabalhos, pelos mesmos motivos, falta de participantes, o presidente encerrou a reunião.

O não comparecimento dessas pessoas não foi achado nenhuma justificativas a respeito, mas podemos dizer que as péssimas condições para a locomoção das pessoas e por morarem distantes da capela, ou pelo motivo da economia do sertão não ser tão convincente, onde muita gente passava necessidades não podendo dar as contribuições.

A reunião seguinte foi para para concluir os trabalhos das duas reuniões anteriores, compareceram mais de trinta pessoas, e diretoria apresentou o plano para receber com mais eficácia as arrecadações, as chamadas de: “as doze classes” criadas pelo Frei Paulo, ficando organizada da seguinte forma:

                          [...]a classe de seiscentos e quarenta{...}de trinta mil a por ficando as classes de cima e em decima agenciar dos quatros procuradores dos distritos , pertencendo para a classe que e a de trinta mil, e segunda corrente da lista archivada, quatro cidadãos da segunda, que é de vinte cinco mil- da classe três é de vinte e um, da quarta que é de quinze mil- cinco-da quinta que é de dez mil -vinte dois da sesta, que é de dois mil oitenta mil e um -da oitava, que é de mil e quarenta e oito -da nona, que é de seiscentos e quarenta- deseceis – vindo a soma o nº de cidadãos multados, para um foi tão justo, isto é, p. Jherônimo, o reboque a dita capella da S da Glória em duzentos, e quito cidadãos na quantia de novecentos e trinta, e nove mil, duzentos e quarenta, cujas- quantias deliberou a meza, que fossem repartidas pelos procuradores para estes agenciarem aos cidadãos moradores na sua repartição e que dos mais de outro distrito, a repartição pertencem ao procurador encarregado da obra assim como foi logo deliberado ao secretario para tirar estas listas e forem entregar aos procuradores para quanto antes tractarem destas cobranças. Declara-se que a soma não é de novecentos e trinta nove, duzentos e quarenta , e sim oitocentos, e cecenta e oito mil duzentos e quarenta.(Atas do Apostolado, 16 de dezembro de 1844).

Essa iniciativa idealizada por Frei Paulo, foi uma estratégia para adquirir mais fundos. As ordens foram dispostas aos procuradores para irem em busca das devidas cobranças, sendo a soma total de 868$240. Alguns cidadãos foram multados por não cumprir as devidas obrigações, podendo pagar tanto em dinheiro ou trabalhos na obra, isto é, tinham que dar contribuições mesmo quando não possuíam condições financeiras.

3.3 A importância dos leilões nas construções de capelas

            Os leilões são importantes para adquirir um determinado benefício financeiro a pessoas ou instituições, essa tradição é uma prática comum até os dias de hoje. Nos dias de novenas em homenagem ao um santo ou padroeiro, as pessoas doavam alguns produtos, como alimentos, bebidas, enfim, até um objeto de valor maior, foi o que aconteceu por exemplo no período de conclusão da Capela Nossa Senhora da Glória. Neste momento:

                                         [...] foi apresentado pelo Sr. José Ribeiro de Magalhães um par de brincos de qual lhe foi entrega a viúva de Antônio Mario Gueiros, D. Tereza Maria de Jesus, dizendo que seu marido tinha os deixado a Nossa Sr.ª da glória no valor de trinta Mil rs. A mesa deliberou que se fizesse entrega dos brincos do procurador o Sr. Antônio Pereira da Silva, para que os pusesse em leilão a benefício da obra da Igreja. (Atas do Apostolado setembro de 1851).

            Como visto, a joia doada tinha um valor considerável; custava trinta mil réis, uma herança do marido de D. Tereza em benefício a Nossa Sr da Glória, provavelmente seria um pagamento de dívidas à capela, pelo fato de ser obrigação do moradores do arraial contribuir na construção. Não consta nas atas seguintes o benefício adquirido com esses brincos e qual foi seu destino.

 Os artigos do regulamento mencionam importância desses leilões:                            

                                                             Nº-1. 

                                       Art. 7º sendo antiguíssimo uso dos leiloes um dos meios mais usaes de que as vezes se servem as irmandades e deve para por eles obter quantia, que depois revertem em beneficio dos esplendor dos sanctos, e aceio da Igreja, e podendo desta sorte concorrer e, mutualmente e sem detrimento algum, tanto os ricos, como os pobres, com as suas oferendas, a nossa senhora, para com o produto ajutarar-se a obra da sua igreja, fica por tanto authorizada o procurador desta mesa a promover tanto leilões, quantos parecer conveniente.

                                      Art. 8º- sendo reconhecidos os sentimentos religiosos, com que algumas das senhoras desta freguesia se tem destinguido afavor da Igreja com as suas prestações, e extensível e aplicada a ellas o artigo antecedente. (Atas do Apostolado 1863).

Percebemos a predominância e a tradição dos leilões, no artigo 8º há ênfase na participação das mulheres, e embora pareça não haver presença delas nas secções, elas foram muito importantes na construção e acabamento da capela, como nos leilões com seus dotes culinários preparando os alimentos para colocá-los aos fiéis (Fala-se em leilões, mas não descartamos a possibilidade de Quermesses), mas também nos seus trabalhos eucarísticos e outros benefícios à capela. Esse é um grupo marginalizado do poder, mulheres donas de casa que não participavam da vida política da sociedade, suas vidas na maioria das vezes se concretizavam nos serviços domésticos e religiosos.

3.4 Últimas arrecadações para a “Abertura das celebrações”

            Para que a capela ficasse pronta, a ponto de poder celebrar a eucaristia, precisava alguns ajustes finais, nesta intenção houve uma seção para a “estalaçao da abertura mesa” (conclusão) afim de receber os “Ficas[23] das pessoas que por inconveniência deixaram de comparecer nas reuniões anteriores. O procurador Timothéo Alves de Oliveira naquela ocasião de prestar contas das verbas arrecadas pelos moradores do arraial, apresentou a lista das rendas recebidas:

Tabela 01: Doações em dinheiro para o acabamento da capela Nossa Sr.ª da Glória[24]

Doadores

Quantias em reis ($)

João da Mota Pires

5$000

Joaquim Tavares

2$000

Francisco Ferreira da ?

2$000

Joaquim Pires de Car?

2$000

Luiz de Melo Suares

1$000

Joaquim de Souza Duarte

2$000

Estalinao de Brito Gondim

1.000$000

Honorato Pires de Cars?

1$000

Francisco Pires de Cars?

1$000

 

Percebemos na lista pessoas que talvez pelo sobrenome possuíssem um grande poder aquisitivo, como Estanilão de Brito Gondim, de família rica proprietária de terras e gados na região de Caetité.

A soma total foi de 17$000, neste mesmo dia, o Padre José Alexandre Leão convidou os devotos da Igreja para tratar da “planta do cruzeiro e altar mor”, foi apresentado por Francisco Mendes, e aprovado pelos presentes da reunião; é importante relatar que esta obra já havia sido mencionada no dia 15 de agosto de 1847, e só depois de quatro anos foi aprovada.

Para prosseguir com as arrecadações, outras contas foram apresentadas pelo Sr. Major Francisco Manoel da Silva Ribeiro, declarando ter recebido dos seguintes senhores:

              [...]do procurador o Sr. Antônio pereira da Silva desecete mil e trinta para conta de vinte e três mil e oitenta que ele ficou a Igreja devendo como consta na acta do 1º de novembro de 1844, se vê no livro da thesouraria, igual declaração; Declarou o mesmo thesoureiro ter recebido do procurador Manoel Feliciano Denis Carneiro, a quantia de desecete mil como consta do referido livro. A mesa deliberou que avendo para isso ainda resta-lhe a igreja, ceis mil e cincoenta que se pagará este saldo na quantia dos desecete mil`[...] (Atas do Apostolado de 1851).

É notável algumas arrecadações recebidas, na ocasião o Sr. Antônio pagou uma dívida com cinco anos de atraso, um valor considerável que ele como procurador não prestou contas, e apesar da entrega de algumas quantias, faltaram 6$000. Com o tempo vieram mais benefícios a capela, inclusive da responsabilidade do Sº. Antônio que:

                                         Declarou o senhor Sr. Procurador Antônio Pereira da Silva achar em seu poder a quantia de dois mil reis que concorria para a obra o Sr. Antônio Ambrósio de Abreo, e mais dois mil reis de Domingos José de Sta Anna, mandou se declarar no livro da thesouraria ultimou se o alistamento no livro da tesouraria, recebidos oje orçando na soma de um conto e trinta mil reis os ficas passados a 8 de abril, e na soma de trezentos e cinquenta e nove mil reis recebidos, Oji e cobrirá todas as somas orçou na quantia de um cento-quatro-centos e dose mil reis[...] (Atas do Apostolado 8 setembro de 1851).

                                        Fica a guarda de Jose Ribeiro de Magalhães a quantia de ceis mil reis que da o Sr. Capitão Mor José Justino d’ Oliveira doou a Nossa Sr.ª da Glória.

                                        Riaxo 15 de Março de 1852 (Atas do Apostolado 15 de março de 1852).

Nota-se nas duas citações acima, são de datas distintas, no entanto estão na mesma folha; e o total da renda adquirida durante todo esse tempo pelos procuradores chegou a quantia de 1.416$000. E por fim, depois de mais de dez anos de trabalhos na construção, as doações dos moradores do arraial, concluímos que o dinheiro adquirido foi suficiente para aquele momento encerrarem as obras da capela, não totalmente construída mas ficando pronta para celebrações e atender as expectativas dos fiéis; isso fica explicito na última página da ata em agosto de 1853:

Visto em convicção não tomo conhecimento por não se dar instituição, pela qual se torne sujeito ao conhecimento os associados, por ser oito todo particular entre os associados, aos quais folgo de vender elogios pelo fervor e zello em que procurarão tossiar a capella pronta em estado de acceio a celebrar os actos divinos, com aquele esplendor e brilho que tanto movessem e cujos esforços não devem amefiçer tam distintos cidadão já que estão afinal convidados com a conclusão de termo religioso e santa [...] Vinte de Monte Alto . 19 de agosto de 1853.

Encerro a secção do ponto (Atas do Apostolado, 19 de agosto de 1853).

Portanto, neste momento, graças ao empenho das pessoas nos serviços na obra, a comunidade que doou dinheiro ou outros materiais, os trabalhadores na construção que sofreram num oficio árduo e perigoso, a capela fica pronta para as celebrações eucarísticas no ano de 1853. Conclui-se pelo contexto: A Capela coberta, rebocada, com o altar mor e o retábulo;[25] adquirindo feições de igreja. Embora pronta para as celebrações católicas, ainda faltava alguns ajustes; com o decorrer tempo vão serem feitas várias reformas, uma prática comum das construções de muitas igrejas.

Não encontramos documentos históricos sobre a primeira imagem física da capela, foi à de Nossa Senhora da Glória? Os documentos não deixa claro, mas é possível que houvessem imagens sacras, pois a imagem do(a) padroeiro(a) é a identidade do igreja ou capela. Mas a imagem atual não é do século XIX, veio em 1906, antes porém, em 1861 foi instituída a paróquia Nossa Senhora do Rosário e as antigas imagens é um mistério.

Segundo memorialistas, há uma história pitoresca na cidade de Riacho de Santana, são as trocas das imagens Nossa Senhora da Glória (Riacho de Santana) e Santa’ Anna (Caetité) que foram invertidas a caminho dos seus respetivos destinos, assim elas foram trazidas de Portugal até Salvador, da capital, o condutor as levaram até o Rio São Francisco no litoral norte da Bahia, para pegar um barco e seguir o rio com destino à Bom Jesus da Lapa, ao chegar, logo pega um carro de bois para a entregar as imagens nas respectivas cidades, ao passar por Riacho de Santana o condutor inverteu as santas, ao descobrir o fato os fiéis concordaram, alegando ser um caso divino.[26]

Há muitas controvérsias desse fato, inclusive em relação à formação da freguesia de Caetité, que segundo historiadores e memorialistas, foi originada sob a tríade Patrimônio-capela-arraial. Neste perspectiva, Mendes (1996, p.23) afirma que em 1740 a família carvalho possuidora da primeira fazenda edificou uma capela em homenagem a Senhora Santana, doando terras para a criação de uma freguesia, o que foi feito em 1754.

3.5 “A sagrada necessidade que havia de reparo e acabamento dos serviços da Igreja Matriz em 1863”

No ano de 1863,[27] no dia 4 de abril especificamente, foi convidado a maioria dos habitantes da freguesia Nossa Senhora do Rosário de Riacho Santana, pelo Vigário Antônio de Boaventura de Cerqueira Pinto, para apresentar “a grande sagrada necessidade que havia de reparo e acabamento dos serviços da Igreja Matriz”, considerando a utilidade da criação da mesa, que teve princípios em 1844. E de acordo com o regulamento, a mesa será composta de um presidente, um secretário, um procurador, um tesoureiro e dose consultores. O primeiro artigo evidencia:

                            Artigo 1º- He da competência da meza deliberar a bem da matriz, promovendo acabamento da Igreja, solicitando do povo, seos, contigentes e esmolas, a fim de, com intuito em socorros fazer-se todo o serviço precizo da Igreja, apresentando aos administradores dos serviços, a da preferencia. (Atas do Apostolado abril de 1863).

Como dito, o povo foi convocado mais uma vez para cuidar das obras da matriz. Nesse mesmo período foi criada uma comissão para cuidar da aquisição das madeiras precisas para os andaimes da obra da Igreja, tratou-se também de contratar um mestre de pedreiro para encarregar-se da obra. Como consta nas escrituras das atas:

                            [...]deliberou-se que o procurador, convidasse a um oficial de pedreiro Bahiano, residente actualmente na Vila de Santo Antônio da Barra, comarca de Caetité, para este quando vir encarregar-se, querendo da obra da Igreja, e passou por unanimidade. (Ata do Apostolado 18 de abril de 1863)

Possivelmente faltava mão de obra qualificada no arraial de Riacho de Santana, ao ponto de ir à Santo Antônio da Barra[28] buscar um pedreiro; é sabido que as distancias e as dificuldades de viagens são enormes, poderia ser um profissional requisitado na região. Não há comprovação se realmente contratou pedreiro, não foi citado seu nome em outas seções.

3.6 As cobranças dos bens pertencentes à Igreja (1863 a 1866)

As doações foram importantes para o término da capela, é perceptível nas reuniões o quanto de arrecadações foram recebidas; em uma destas ocasiões, o presidente fez uma leitura da lista de nomes de algumas pessoas da freguesia, citando os seguintes senhores:

Tabela 02: Arrecadações para a obra da Igreja de 1863 [29]

Doadores

Quantias em reis $

Noberto Lourenço de Ameida – 200$000

 200$000

Martiniano Pereira da Silva

 200$000

Francisco Fernandes Lessa

 200$000

Manoel Joaquim Gomes dos Reis

100$000

Tenente Thimotheo Alves de Oliveira

100$000

Pedro Alexandrino de Almeida

100$000

João Mauricio de Carvalho

 50$000

José Pereira Coutinho

25$000

José  Fernandes Leão

10$000

Tertulino Pereira Couto

100$000

Major Francisco Manoel da Silva Ribeiro

500$000

Pedro Pereira Teixeira

Uma matolotagem  para a mesma Igreja

 

Essas arrecadações somadas teve o valor de 1585$000 e mais uma ‘Matolotagem,[30] é importante verificar que muitas dessas pessoas não participaram das reuniões da mesa nos anos de 1844 a 1852, portanto são novos moradores da freguesia. A capela recebeu outros tipos de doações em materiais, percebemos uma quantidade variada de esmolas oferecidas pelas pessoas, nas atas referencia-se:

                          Apresentou-se José Fernandes Leão, a conta com a meza, 500 paos de paleiros para cima, para andaimes pela quantia de 50 paos, e for aprovado o dito contrato, sob acendiaçao de por ao pé da obra.

                                                                                [...]

                           Ficou definitivamente deliberado que se mandam já prevenir ao comandante Serperino João Caetano Xavier da Silva Pessoa por mandar fazer a cal, que graciosamente, deo para a obra desta Matriz do Riacho de Santa’Anna, para considerar respeitada, manda-se conduzir a mesma cal. (Atas do Apostolado, 14 de junho de 1865).

            Frequentemente as cobranças eram feitas sem receios, como se fosse uma obrigação de todos, e quem não contribuísse poderia ser multado. A parti de 1863 houve várias cobranças dos proprietários de casas e quintões situados no terreno da Igreja, era imposta uma quantia de 100 reis braça anualmente (taxa de aforamento), não sabemos o quanto adquiriram, mas as cobranças estavam sendo discutidas em todas as reuniões seguintes.

Também foi criada uma comissão composta pelo Major Francisco Manoel da Silva, Norberto Lourenço de Almeida, Manoel Joaquim Gomes dos Reis e o Vigário Antônio Boaventura de Cerqueira Pinto para fazer efetivamente as cobranças das esmolas para a obra da Igreja, a qual comissão devesse sair a percorrer a freguesia para este benefício, recebendo as seguintes arrecadações:

Tabela 03: Arrecadações para a obra da Igreja de 1865.[31]

Doadores

Quantias em reis $

Manuel Joaquim do Amaral

25$000

Manuel Gomes Nogueira

10$000

Rodrigo Ribeiro de Magalhães

10$000

Hilariao de Azevedo pessoa

20$000

Gabriel Guimaraes e Silva

10$000

 

Nota-se que a renda adquirida é o suficiente para dá andamento às reformas; mas consideravelmente pouco para construções de igrejas, essas quantias somadas com as demais já citadas chega ao valor de 1.720$000. Nas fontes evidenciam que essas cobranças maltratavam os moradores da freguesia, pelo fato de ser uma obrigação e não somente esmola para a Igreja, as vezes quando tinham dinheiro doavam outros materiais como madeira, matolotagem, enfim até força física de trabalho na obra.

Com a chegada do novo vigário Tiburtino Alves Mainardes em 1865, prosseguiu os trabalhos como presidente das reuniões, preocupou-se também com as cobranças, principalmente com a taxa de 100  reis anuais por braça de terreno pertencente ao santuário, ocupadas por casas dos moradores ao redor da capela.

3.7 A criação de gado sob tutela da Igreja

O setor forte da econômia no alto sertão, era a agropecuária, sustentada por trabalho escravo, existia grandes fazendas na região, muitas com uma diversidade agrícola, outras com criações de gado. Nesta perspectiva a igreja recebeu doações dos desses proprietários, chegando a um número considerável de animais vacuns.

Em uma das reuniões da mesa, foi aberta pelo secretário uma discursão, com o foco dos bens pertencentes à Igreja; como as arrecadações em dinheiro e animais vacuns, que estavam sujeitas a “provedoria de Capelas e Resíduos”. Das cinco questões propostas pela mesa, esta tem maior relevância:

                            3º- Que também se officie ao Senhor Jose Theodoro de Souza, pedindo-lhe que declare a esta meza de em seo poder a quarda existem alguns animaes vacuns ou cavalares pertencentes a este santuário. (Atas do Apostolado, 25 de dezembro de 1865).

Verifica-se que a Igreja possuía muitas cabeças de gados e cavalos, foi constatado a existência de animais vacuns em sua posse espalhadas por algumas fazendas da região, para urgentemente serem vendidas, como fica evidente nas atas:

                            Leo-se um officio do senhor Jose Theodoro de Souza, e uma lista em que declara existirem sob sua guarda 21 cabeças de gado de toda a sorte, pertencente a esta matriz, e o senhor procurador Timotheo Alves de Oliveira declarou que também na Santaninha, e sob sua guarda existem seis cabeças de gado, toda sorte pertencente a esta matriz, de que declarou o senhor vice presidente aberta a sessão, e poz em discussão a sequinte, por meio de requerimento que fez nestes termos , requiro que tanto as 21 cabeças de gado existentes sob a guarda de Antônio José Theodoro de Souza, e a seis ditas em poder e sob a guarda do senhor Timotheo Alves de Oliveira sejao vendidas, para que seo proveito seja ainda já despendido para a feitura da obra da Igreja, nem só pela urgente necessidade que há desta, como que sendo ter proibido que as corporações de não mostrar possuirão bens; pode isso cahir em comisso e hir reverter em proveito do tesoureiro Nacional, com grave prejuízo a nossa matriz, alias muito necessitada. (Atas do Apostolado 1º de abril de 1866)[32]

Como é possível ver na lista, a Igreja possuía 27 cabeças de gados, e esse número provavelmente aumentaria, se contasse em outras fazendas, que não encontramos registros. Enfatiza também o “tesoureiro nacional”, do que se trata? A explicação mais plausível, pelo o contexto, os bens da matriz poderiam passar para a união, dando a entender que, era proibido as corporações religiosas possuir bens;  e quando passar a provedoria de Juiz de capelas, paga-se um imposto  para a arquidiocese ou governo Imperial.

3.8 A mudança de padroeira e a criação da Paróquia e Freguesia Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana

A criação de uma paróquia e a nomeação de um pároco estavam, na maioria das vezes, vinculadas as condições econômicas e sociais que a igreja exercia na região; e no arraial de Riacho de Santana constituía um caminho que ligava a outras vilas de grande importância comercial entre o alto Sertão e médio São Francisco, possibilitando um intercâmbio comercial.

            Sabe-se que em 12 de setembro de 1861, pela resolução Provincial nº 871, foi fundada a paróquia Nossa Senhora do Rosário, quando o vice-presidente da província da Bahia o Exmo. Senhor José Augusto Chaves, assim decretou:

Resolução Nº 871 de 12 de Dezembro de 1861

Jose Augusto Chaves, vice presidente da Bahia.

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa Provincial Decretou e eu sancionei a Resolução seguinte:

Art.1º. Fica ereta em freguesia a capela de Nossa Senhora do Rosário do Riacho de Santana, ora filial da Freguesia de Nossa Senhora de Monte Alto, Mae dos Homens.

Art.2º. Os limites da Nova Freguezia serão os mesmos do Distrito, salvo nos pontos Sul, onde confinara com os extremos com a Fazenda Cajueiro.

Art.3º. Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as Autoridades, a quem o conhecimento, e execução da referida Resolução pertencer que façam cumprir, tão inteiramente como nele se consta;

O Secretario desta Província a faça imprimir, publicar e correr.

Palácio do governo da Bahia,12 de Dezembro de 1861.

Jose Augusto Chaves. (Arquivo da Diocese de Caetité)[33]

No ano seguinte em 18 de outubro de 1862, ficou oficializada a Paróquia Nossa senhora do Rosário e a encomendação do Vigário, pelo arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil Dom Manuel Joaquim da Silveira. Muito frequentemente o rei recusava as petições e os bispos viam-se obrigados a nomear um vigário, até que viesse a nomeação oficial, que podia demorar vários anos. Estas duas modalidades de fundação de paróquias levara a existência de dois tipos de párocos: o colado, nomeado pelo Rei, e o encomendado, nomeado elo Bispo. Nesta última situação veio o primeiro Padre da Paróquia recém criada de Riacho de Santana, como podemos ver no documento a seguir:

                                                          [...]

 Provisão do Vigário Encomendado da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, a favor do Revdo. Antônio Boa Ventura de Cerqueira Pinto.

 Dom Manoel Joaquim da Silveira por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica Arcebispo da Baía, Metropolitano e Primaz do Brasil, do conselho de S.M. o Imperador, Comendador da Ordem de Cristo, etc.

 A todos os fiéis da nossa Diocese, saúde e bênção, fazemos saber que, atendendo ao que por petição nos enviou o Revdo. Antônio Boa Ventura de Cerqueira Pinto: Havemos por bem do PROVER, como presente Nossa Provisão e provemos em ocupação de Pároco Encomendado da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, desta província, e arcebispado, por tempo de dois anos, se antes não mandarmos o contrário, a qual ocupação  servirá como convenio a serviço de Deus, e santificação das almas dos paroquianos da referida freguesia, administrado-lhos os sacramentos e obedecendo aos de todos os pecados, excecptos dos reservados, atuais, voluntários, concubinatos e ocasiões próximas fazendo estações, ensinando a doutrina chirtan, principalmente aos pequenos, e pessoas rudes que necessitarem do saber e guardando em tudo obrigações do Bom Pastor, cumprindo a residência em a mesma Freguezia, na forma do Sagrado Concilio Tridentino, e constituições deste arcebispo.

                                              [...]

Dado nesta cidade da Baía, sob nosso sinal, e selos das nossas Armas, aos seis de outubro de 1862. Eu Raymundo Barroso de Souza, subscrevi. (Arquivo da Diocese de Caetité).[34]

Em seis de Outubro de 1862, portanto, foi nomeado pelo Bispo, o primeiro Pároco, o Padre Antônio Boaventura Cerqueira Pinto,[35]temporariamente no prazo de dois anos, logo em 1865 há uma troca de vigário, chegando para substitui-lo, o Padre Tiburtino Alves Mainardes. Cabe aqui darmos uma pequena ênfase sobre este sacerdote, conta-se que teve seu oficio sacerdotal suspenso por faltas graves, culminando com o processo e a prisão em 1875, conforme os documentos a seguir:

 16-02-1875

[...] 29 de janeiro p.f. suspendi do ofício Sacerdotal e Benefício Paroquial por tempo indeterminado, ao Pe. Tiburtino Alves Mainardes, Vigário Colado da Freguesia de N. Senhora do Riacho de Santana(...) e encarreguei a administração da dita Freguesia ao Pe. José Alexandre da Silva Leão, Vigário Colado da Freguesia de Monte Alto.

03-04-1875

[...] Reverendo Tiburtino Alves Mainardes [...] o qual está sendo processado e já se acha preso[...] este Vigário está sofrendo pena de Suspensão do Ofício Sacerdotal e Benefício Paroquial conforme declarei [...] pena que lhe impus por faltas graves que ele cometeu no exercício de seu ministério paroquial, restando-me somente lamentar que um sacerdote, aliás de talento [...] tenha se entregado a tais desregramentos praticando atos tão reprovados. (Maço 5210/Colonial, do APEB)[36]

Não temos muitas informações sobre a vida do Padre, sabemos que, antes de vir para Riacho de Santana ele exercia seu oficio sacerdotal na cidade de Macaúbas desde 1858, portanto um padre experiente. Como é perceptível, quando diz que ele cometeu faltas graves no seu serviços sacerdotais, é provável que o Padre Tiburtino Mainardes extorquiu os paroquianos, com desvios de verbas ou vendas de objetos sacros, são suposições que merecem ser estudadas profundamente.

Para entendermos os acontecimentos que giram em torno das reformas da Igreja no século XIX, é importante usar fontes iconográficas. Elas são necessárias para a pesquisa e conhecimento histórico. Nesta perspectiva uma fotografia do século XIX é de extrema importância para um trabalho historiográfico e científico, e como diz COULANGES (1888, p.32) “a história não é arte é ciência pura”[37], Compreendemos que ela seja arte e também ciência; neste viés, existe uma fotografia que diz ser da reforma ou construção da matriz de Riacho de Santana, cabe nós decifrarmos os enigmas dessa fotografia, que embora não seja do período especifico deste trabalho (1840-1866), e não sabemos se câmera fotográfica já havia aparecido na região. São muitos estudos a decifrar em uma imagem, uma fotografia original é uma fonte primaria.

                           Uma vez verificada sua autenticidade e fidedignidade ela pode e deve ser utilizada no trabalho histórico por se tratar de um documento iconográfico que nos traz informações dos cenários, personagens e fatos de outrora. A imagem fotográfica que se examina, entretanto, diz respeito apenas, a uma fração da realidade. Ela não substitui a realidade como um todo. Surge, pois, a partir da própria evidencia testemunhal dos seus conteúdos os problemas de interpretação (KOSSOY,2000; cap. IV p. 12)

Nesta perspectiva vamos mostrar uma imagem valiosa para esta pesquisa, uma Igreja em construção, e compararmos com a matriz atual, percebe-se semelhanças e diferenças:

               Figura 04: Fotografia da construção de uma igreja, provavelmente da atual matriz de Riacho de Santana, (não há data e não sabemos a quem pertence, exposta na galeria da Praça Monsenhor Tobias).

Nessa foto antiga é visível apenas a construção de uma nave (central) denotando uma diferença da atual, mas podemos notar muitos detalhes como: As casas ao fundo e lateral, os operários, os andaimes, a arquitetura mostrando tamanho, portas e janelas e um sino em local estranho.

            Depois de analisar a foto antiga, temos que interpretá-la da melhor maneira possível, descobrindo a fidedignidade da fonte. Veja a foto da matriz atual:

Figura 05: Fotografia da atual matriz de Nossa Senhora da Glória, fonte: BOA SORTE, José Farias. Riacho de Santana Seu passado, sua história, Reminiscências de uma história singular. Feira de Santana, 2010.

É perceptível na foto, que há muitas diferenças e semelhanças com a capela citada e a matriz atual, mas pelo contexto histórico das reformas da Igreja há controvérsias, segundo Boa Sorte (2010, p.36), os trabalhos voltaram a ser feitos no período compreendido entre 1865 até 1877 pelos reverendíssimos padres José Alexandre Leão e Tiburtino Alves Mairnades, este último ficando por onze anos no cargo, fez muitas reformas na Igreja. Boa Sorte comenta que, neste período o padre mandou construir a parte da nave central e lateral norte. A fotografia parece ser mesmo do fins do século XIX, quando observamos bem é notável as semelhanças, as três janelas de cima e as três portas da frente, pois as laterais foram construídas depois.

O Padre Tobias Pereira Coutinho que foi muito importante nas reformas da igreja no fim do século XIX, segundo memorialistas a parti de 1878 empreendeu grandes reformas nas instalações da Igreja, dando-a feições de catedral, como a que vimos hoje, uma nave central e duas laterais, com essa informação a primeira imagem pode ser do tempo do Padre Tobias.[38]

É sabido que no ano de 1862 foi criada a freguesia de Nossa Senhora do Rosário, separando portanto da freguesia de Nossa Senhora Mãe de Deus e dos Homens de Monte Alto. Segundo a Resolução Nº 871 de 12 de Dezembro de 1861, já citada anteriormente. Na carta da Provisão de Instituição Canônica, cita relatos interessante de como deveria ser a Paróquia.

                                         [...]para ter Sacrário, em que se conserve o S.S. Sacramento da Eucaristia, para consolação dos Fieis, havendo o necessário ornato, e decência, e tendo rendas suficientes para a conservação da lâmpada acesa, de dia e de noite, pia batismal, Cemitério para sepultura dos paroquianos defuntos, Campanários, Torres e Sinos, e todos os mais direitos, privilégios honras, insígnias, distinções de uma Igreja Paroquial. O Reverendo Pároco respectivo haverá a côngrua anual em conformidade das leis em vigor, a bem dos adquiramentos  da Paróquia, e o que for aplicado a sua Fábrica e participará das oblações matrimoniais, e nos batismos e desobriga da quaresma, nos ofícios, e enterramentos de defuntos, e todos os mais direitos de estola e que por lei estão estabelecidos na respectiva Paróquia de que é desmembrada a referida Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana. (Arquivo da Diocese de Caetité)[39]

No documento evidencia-se algumas exigências para que a Capela tenha todas as distinções de uma Igreja Paroquial, dentre estas: Pia batismal, os sinos, torres e cemitérios. Presentes em muitas igrejas do período colonial e imperial no Brasil, portanto deixando de ser uma simples capela. Na fotografia vimos um sino, provavelmente as celebrações aconteciam na Igreja em plena construção ou reforma; talvez houvesse perto da obra um local de celebrações, ou seja a antiga capela poderia estar de pé enquanto a obra da nova igreja estava sendo executada, a casa ao lado é possível ver uma arquitetura estranha a uma casa, parece ser uma capela.

Com a instituição de uma paróquia era necessário um cemitério; não temos informações contundentes se havia um cemitério no Arraial.  É sabido que enterrar mortos no interior das Igrejas é um costume medieval que, no Brasil, só foi abandonada após proibição da saúde pública quando o estado e Igreja se separaram, além do obvio e prático: Não haveria espaço suficiente dentro de uma Igreja, por maior que fosse, para se enterrar cadáveres em seu interior durante anos. Ao se tornar Paróquia a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, foi necessário dentre outras distinções citadas, construir um cemitério.

 Na vila foi construído seu primeiro cemitério por volta do ano de 1896; antes dele, onde se enterravam os mortos? Possivelmente, quem morava em fazendas, os enterros seriam no mesmo terreno, se a fazenda tivesse alguma capela, enterrava-se dentro ou nas proximidades. Na vila não se sabe ao certo, mas é provável que fosse próximo à Capela Nossa Senhora da Glória, ou até mesmo dentro. Segundo João José Reis (1991, p.189) “a grande maioria dos baianos era enterrada nas Igrejas de suas próprias Paróquias”. Mas tinha algumas distinções sociais, como cita:

                                         De um modo geral, pessoas de qualquer condição social podia ser enterradas nas Igrejas, mas havia uma hierarquia do local e do tipo de sepultura. Uma primeira divisão se fazia entre o corpo, parte interna do edifício, e o adro, a área em sua volta. A cova no adro era tão desprestigiada que podia ser obtida gratuitamente. Ali se enterravam escravos e pessoas livres muito pobres. Eis uma pequena amostra referente à matriz da Penha em Salvador. (REIS, 1991, p. 175).

Em Riacho de Santana essa realidade foi vivida, há resquícios de um cemitério em frente à Igreja. Boa Sorte relata que durante a administração do Prefeito Dr. João Laranjeira, quando se executava as escavações para desenvolver o projeto de urbanização da Praça da Matriz, foi detectado, através de presença de ossadas, a existência de um pequeno cemitério, nas imediações onde se encontrava fincado um cruzeiro na atual Praça Monsenhor Tobias. De quem foram as sepulturas? dos paroquianos, dos mais pobres, os escravos, não se sabe, o fato é, no adro ou dentro das igrejas seriam enterrados os mais influentes, como diz Reis:

                                       “ser enterrado próximo aos altares era um privilégio e uma segurança mais para a alma, atitude relacionada à pratica medieval de valorizar a sepultura próximo aos túmulos de Santos e mártires da cristandade”.(REIS, 1991, p.177)

Em Macaúbas cidade vizinha, Figueredo (2001, p.38) notou um fato interessante, diz que na data 18-09-1860, o Fabriqueiro[40] da matriz anotou no livro de receitas que as sepulturas grátis seriam fora da igreja por não haver mais sepulturas vagas o seu interior, portanto nota-se que no interior baiano houve essa pratica em diversas capelas e Igrejas no século XIX,           quanto mais perto do altar mais perto de Deus, mas esse benefício só para os que tinham uma condição financeira favorável.

Considerações finais

Objetivou com este trabalho falar da construção e acabamento da capela Nossa Senhora da Glória em meados do século XIX no arraial de Riacho de Santana Bahia, período em que não havia nenhum aspecto urbano, possuía algumas fazendas, constituindo-se um espaço de sociabilidade muito significativa, consolidando com a formação de uma freguesia, sob a tríade patrimônio-capela-arraial.

Observou-se nesse espaço no ano de 1827, a doação de um terreno à Nossa Senhora da Glória, para construção de uma capela, que teve início nos idos de 1840 por iniciativa do Frei Paulo, e pronta para as celebrações eucarísticas em 1853, graças à ajuda daqueles núcleos familiares, com doações em dinheiros e outros materiais para o serviço da obra. Mas as reformas continuaram posteriormente, houve mudanças muito fortes nas estruturas físicas da Igreja, que aliás, hoje não podemos perceber facilmente nenhum resquício do princípio da construção.

Nota-se que feições de catedral, portanto, só passou a ter na década de 1870, com as naves laterais e central. Provavelmente o mesmo período das casas mais antigas da praça da matriz, os moradores pagavam uma taxa anual (foro) para fixar residências, sob a Tríade Patrimônio-capela-arraial, isto é, a formação do primeiro núcleo urbano tem a ver com a instituição de uma capela, isso demostra o poder político que a igreja católica tinha no século XIX.

É notável a participação das mulheres, que no passado eram excluídas do poder, embora não há presença delas nas reuniões transcritas em atas, elas tiveram um papel significante para a construção da capela. Não menos importante foram os escravos, com certeza foi usada muita mão de obra negra na construção, prática comum nas construções civil do período colonial e do império.

Esperamos, satisfatoriamente, que esta pesquisa contribua para a ampliação da História Regional do Alto Sertão da Bahia, sobretudo para o conhecimento histórico da vida social, religiosa e cultural do município de Riacho de Santana Bahia, uma vez que, como sabemos ainda não há uma produção bibliográfica consistente que se dedique ao estudo da construção de um patrimônio cultural, religioso e material-edificado como esse, portanto deixamos lacunas a serem preenchidas por novas produções.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Fontes manuscritas:

Atas do Apostolado de 1844 a 1866, Secretária da Paróquia Nossa Senhora da Glória.

Carta da Provisão de instituição Canônica da Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana. Diocese de Caetité.

Provisão do Vigário Encomendado da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, a favor do Revdo. Antônio Boa Ventura de Cerqueira Pinto.

Resolução Nº 871 de 12 de Dezembro de 1861- Paróquia Nossa Senhora da Glória de Riacho de Santana.

Fonte Oral:

Entrevista do Padre Aldo Luchetta com Deocleciano Castro em 1997, transcrita por João de Dona Lurdes. 36 folhas e 72 p.

 Livros, teses, artigos:

A Pesquisa em História, Maria do Pilar de Araujo Vieira, Maria do Rosário da Cunha Peixoto, Yara Khoury- Professoras da Pontifica Universidade Católica de São Paulo, 4ª ed.  2002. 

AZZI, R. A Se primacial de Salvador- A Igreja Católica na Bahia (1551-2001). Vol I – Período Colonial, Petrópolis –RJ: Vozes, 2001.

ELIADE, Mircea, 1907 1986. O sagrado e o profano / Mircea Eliade ; [tradução Rogério Fernandes]. – São Paulo: Martins Fontes, 1992.

FARIAS, José Boa Sorte- Riacho de Santana Seu passado, sua história, Reminiscências de uma história singular. Feira de Santana, 2010.

FIGUREDO, Alan José. Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas. Macaúbas Ba, 2001.

FREIRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 22 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio Editora, 1983.

LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In A Escrita da história: novas perspectivas, Peter Burke (org.); tradução de Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.

LIMA, Simony Oliveira. “Liberdade este dom naturalmente sublime e precioso”: práticas de alforriar e lutas pela manutenção da condição de liberto na freguesia de São José da Carinhanha (1804-1847). Monografia apresentada na UNEB Campus VI, Caetité; 2014.

MARTINY, Carina. Das presenças e ausências: as Atas da Câmara Municipal de São Sebastião do Caí (1875 a 1892) como fonte de pesquisa. Vestígios do passado, História e suas fontes. IX encontro estadual de História- ANPHU- Sessão Rio Grande do Sul.

MATA, Sérgio da. Chão de Deus: catolicismo popular, espaço e proto-urbanização em Minas Gerais, Brasil. séculos XVIII-XIX. Berlin: Wiss. Verl., 2002.

MATTOSO, Katia Maria de Queiróz. Bahia, século XIX: uma província no Império. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1ª edição, 1986.

MESENTIER, Leonardo Marques de. Patrimônio urbano, construção da memória social e da cidadania. Artigo cientifico. Rio de Janeiro; 2009.

NOGUEIRA, Gabriela Amorim. “Viver por si”, viver pelos seus: famílias e comunidades de escravos e forros no “Certam de Sima do Sam Francisco” (1730 - 1790) – UNEB, 2011.

PIRES, Maria de Fátima Novaes. O Crime na Cor: escravos e forros no alto sertão da Bahia (1830-1888). São Paulo: Annablume / FAPESP, 2003.

 RAMOS, Ricardo Tupiniquim. Os Antecedentes da Maius Animarum Bonum In: Diocese de Caetité: 100 anos de Fé e Missão nas Terras Sagradas do Sertão – Bahia: EDUNEB, 2013.

REIS, João José; A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo, Cia. das Letras, 1991.

REIS, Joseni Pereira Meira, NOGUEIRA, Maria Lúcia Porto. S. Vivencias e Praticas do Catolicismo Popular em Caetité: Um Tropel Anunciou que os missionários já Iam Descendo a Ladeira In: Diocese de Caetité: 100 anos de Fé e Missão nas Terras Sagradas do Sertão – Bahia: EDUNEB, 2013.

SAMPAIO, Theodoro. O Rio de são Francisco e a Chapada Diamantina: trechos de um diário de viagem (1879-80). Publicado pela primeira vez na Revista S Cruz. São Paulo. Escolas Profissionais Salasianas. 1905.

SANTOS FILHO, Lycurgo de Castro. Uma comunidade rural do Brasil antigo: aspectos da vida patriarcal no sertão da Bahia nos séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.

SILVA, Fabiano Gomes, PEDRA E CAL: OS CONSTRUTORES DE VILA RICA NO SÉCULO XVIII (1730-1800) Belo Horizonte (MG) Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG 2007.

 

 

 

 

ANEXOS:

ANEXO. O1

Regulamento para a Reunião  de 1844

Artigo primeiro

Artº 1º  - A Reunião dia 21 tem em fim deliberar sobre o acabamento da capela erecta neste Arraial de N.S da Glória.

Artº 2º - Esta estará em seu Preze (presidente) e pelo segundo secretário.

& 1º  Ao Preze compete:

Abrir, e fechar as secções manter a ordem de modo que os reunidos observem  modestamente a decência, os quais cabens acerca da nossa Capella pedirão a palavra pra dar seu parecer, e lhe será concedida pelo prize.

& Ao primeiro secretário compete

Expediente da secretaria, em falta do Prize em qualquer incidência ocupar o seu lugar e que assim imediados se observará a mesma ordem.

Art. 3º Depois da mesa completa votarão os cidadãos reunidos em hum thezoureiro, e procurador

& 1º Ao Thezoureiro compete:

Todos os devidos pertencimentos  à Capella lançados em um livro que será rubricados pelo presidente e provar sobre tudo, quanto forem deliberado, prestando contas, em cada reunião.

& 2º Ao Procurador compete.

Executar as deliberações, que lhes forem encarregadas, e que constarem das Actas de cada uma reunião, prestando contas na mesa do & 1º do Art 3º.

Art. 4º Haverá um livro para as Actas rubricados pelo Prize, no qual se lançará todas as deliberações, que se tornarem estas actas, serão assinadas pela mesa, em seus cidadãos, que se axarem.

Art. 5º As Reunioes serão feitas nas épocas  marcadas em cada huma secção em caso urgente o Prize a convocará extraordinariamente podendo abrir seus trabalhos com dose cidadãos presentes.

Art. 6º A nomeação dos empregados, digo tractao os artigos serão feitos 2º e 3º será feita (...) no dia 8 de (...) os quais sendo reeleitos fica a espontânea vontade de aceitar ou recuzar.

Art. 7º Os empregados digo tractao os presentes Artigos serão feitos a maioria (...) secreto, no cazo de empate.

Art. 8º As deliberaçoens tomadas pela reunião sempre discutidas pela maioria de votos, no cazo de empate o Prize decidirá.

Art. 9º A reunião poderá ampliar reformar ou eliminar qualquer um dos presentes artigos depois de discutidos.

Riacho de Sant` Anna, 28 de julho de 1844. ( Atas do Apostolado, julho de 1844)

 

ANEXO- 02

Regulamento servindo de base para actividade  as da competência da meza creada em 4 de abril de 1863.

Art. 1º Hé da competência da meza deliberar a bem da matriz, promovendo acabamento da Igreja, solicitando do povo, seos contigentes e esmolas,  a fim de, com intuito em socorros fazer-se todo o serviço preciso na Igreja, apresentando aos administradores dos serviços, a da preferencia.

 & 2º - Deliberar sobre qualquer quantia que por ventura haja alguém dado, ou derem já a obra da Igreja, tomando contas de tudo, e destinando-as ao fim para que os derao.

& 3º - Tomar conhecimento dos contratos celebrados pela extinta meza,  e também objetos pertencentes ao serviço da Igreja, chamar para o cofre qualquer quantia ou valores ainda existentes, e aplicar tudo a obra da Igreja.

& 4º - Chamar para o cofre as quantias dadas pelos fieis devotos, para o serviço da Igreja já, as esmolas adquiridas, por quaisquer outros titulo para serem conjuntamente aplicados ao serviço da matriz.

& 5º – Zelar e providenciar sobre a Administração sobre quaisquer benefícios ou bens doados a Nossa senhora, para patrimônio da Igreja, tomar conta ao administrador aplicar rendimentos para os serviços da Matriz.

& 6º - Tomar conhecimento do terreno doado à padroeira, e por uma comissão especial nomeada pelo presidente da meza, conhecer a porção do terreno ocupado com as cazas deste arraial, quintaes, ou chácaras, independente desta, tanto dentro como fora do povoado, e marcar-lhes uma quantia regular a titulo de aforamento por braça de frente, a qual será annualmente  paga pelos foreiros, e applicada para andamento dos serviços da obra da Igreja.

& 7º - Propor pessoas idôneas e inteligentes para  administradores dos serviços da obra da Igreja, os quais prestarão  contas dos dinheiros que houverem recebida para despenderem-nos diversos ramos da mesma obra.

& 8º -Distribuir os trabalhos pelos empregados e tomar-lhes contas, e também procurador, que as prestará nem só dos dinheiros que houver recebido por membros da meza, mas igualmente da que tenha recebida seu, desta, e finalmente da que seu zelo pelo que houver obtido dos devotos, a titulo de esmola para a obra.

& 9º - Exigir opportunamente do Thezoureiro as quantias a elle passadas, afim de applicalas a obra da Igreja, tomando reconhecimento do estado dos serviços e providenciar a respeito das faltas os defeitos, que nelles encontrar.

Art. 2º - A meza reunir-se-a para funcionar, sempre que o Presidente julgar conveniente convocala, e sempre que se reunirem a metade dos seos membros, considera-se há competente este numero para poder deliberar abem da igreja e serviços sem que a isso obte a falta da outra metade dos seus membros, que fica obrigada a acceitar o  que se deleiberar.

 

N.1,

As faltas do presidente e do secretario serão preenchidas ao pendente pelo Reverendissimo Vigário encarregado, secretário por um dos membros da meza , que para isso fornece acolhida à maioria.

Art. 3º- O Presidente da meza, será sempre o primeiro, que depois de aberta a sessão inicie qualquer proposição ou discurssao a bem dos desenvolvimentos dos trabalhos da Igreja, sábio porem o caso, se aberta a sessão, declarar a mesmo Presidente, que tem a palavra qualquer dos senhores mezários as propozições  serão discutidos, e só poderão passar aprovada pós maioria de votos da meza , decidindo os empates o voto do presidente.

Art. 4º- Todos os empregados da meza  tem o direito de pedir a palavra a bem da ordem, e representar abem da obra, da Igreja, mas não poderão usar da palavra, sem que primeiro a obtenhao do presidente que poderá concedela ou negala segundo-lhe parecer mais conveniente afim proposto.

Art. 5º- O Reverendo Vigário desta Freguesia, independente de votação ou de um cargo qualquer, será sempre membro honorário desta meza, e como tal tomará assento ao lado do presidente.

Art. 6º - As nomeações dos Empregados desta meza serão o lugar nos domingo da paschoa, em que se contrarens quinto annos de passada ultima eleição   dentro do quatriênnio não se procederá a eleição se não para preenchimento de alguma vaga os membros que forem reeleitos, tem o direito de renuncia querendo.

Art. 7º - sendo o antiguíssimo use dos leiloes uns dos meios mais usuaes de que as vezes se servem as irmandades e deve para por elles  obter quantia, que depois reverter em beneficio dos esplendor dos sanctos , e aceio da Igreja, e podendo desta sorte recorrer e mutualmente e sem detrimento algum, tanto os ricos, como os pobres, com as suas oferendas, a nossa senhora, para com o seo producto adjutorar-se a obra da sua Igreja, fica por tanto authorizado o procurador desta meza a promover tanto leiloes, quantos lhe parecer conveniente.

Art. 8º- sendo reconhecidos os sentimentos religiosos, com que algumas das senhoras desta Freguesia se tem destinguido afavor da Igreja com as suas prestações é extensível e aplicada a ellas o artigo antecedente.

Art. 9º- A meza e cada um dos seos membros em particular deverão portar-se sempre com o maior respeito e dicencia, relativamente aos seos actos os que procederem diversamente serão advertidos pelo presidente, pelos que os chamará à ordem.

Art. 10º- A meza, a requerimento de algum de seos membros, poderá depois de discutido e aprovado o requerimento ampliar, qualquer dos artigos deste Regulamento.

Das atribuições do Presidente

Art. 11º - Compete ao presidente da meza

&1º-Observar o disposto  no art. 5º inserido na Acta da creaçao da meza, Eleiçao em 4 de Abril, deste corrente anno.

&2º- convocar a meza para as suas reuniões, abrir e fechar os seos trabalhos e repetir as suas reuinioes convocando-a para ellas, sempre que assim julgar necessaria.

& 3º- conceder a palavra ou negalaque pareça inconveniente concedela chamar os perturbadores a ordens e impor-lhe silencio, fazer-se que se obedessek o Art. 9º deste regulamento a das execução aos artigos 3º e 4º.

& 4º- Nomear comissões de entre os membros da meza , para execução dos artigos 3º, 5º, 6º, 7º, 8º e 9º do artigo 1º deste regulamento.

& 5º- Ter sem isso archivo , todos os livros e papeis pertencente a presente meza afim de activar o expediente necessário.

Art. 12º- É da competência do secrtetário.

&1º - Escrever as Actas das reuniões da Meza, e quer fora dela, oficiar e o mais que em virtude deste regulamento lhe for ordenado podendo e devendo dar certidões desde que lhe sejao pedidas.

&2º- Ler todo o expediente da meza e quaisquer officios, contas, ou papeis outros a ella dirigidos em vista do regulamento.

&3º- Dirigir, ou tomar a palavra oportunamente se bem da execução do disposto no Art. 4ºdeste regulamento.

Art. 13º- É da competência do procurador

& 1º- Executar as deliberações que lhe forem incumbidas pela meza, das quais, prestará contas.

& 2º- Agenciar toda a cobrança dos dinheiros e socorros outros, que pelos povos as quantias das suas prestações, de conformidade com a carta que lhe der  a meza, passando muito do que receber, e prestando contas à meza.

& 3º-  Agenciar dos devotos intermédio do seo zelo, e prestigio Religioso, qualquer quantia ou socorros para adjunto do serviço da Igreja, dando de tudo contas a meza, que elogiará seguindo merecimentos dos seos esforços.

& 4º- Promover os leiloes a beneficio da obra da Igreja, na conformidade do Art.7º, deste  regulamento, dirigindo para isso cartas de pedido ao devotos de um e outro sexo, tanto para os moradores.   (Atas do Apostolado de 1863)

 

ANEXO. 03                                     

Provisão de instituição Canônica

Dom Manoel Joaquim da Silveira por Mercê de Deus e da Santa Se Apostólica, Arcebispo da Bahia, Metropolitano e Primaz do Brasil, do conselho de S.M. o Imperador, Comendador da ordem de Cristo, etc.

A todos os fieis de nossa Diocese, saúde e benção.

Fazemos saber que tendo sido creada, por Lei Provincial, de dezoito de Dezembro de 1861, sob o numero 871, uma nova Freguesia na povoação de Riacho de Santana, com o nome de Nossa Senhora do Rosário, desmembrada da Freguezia de Nossa Senhora de Monte Alto, Mãe dos Homens, sendo esta divida em duas partes iguais das quais ficará sendo uma a dita Freguesia de Nossa Senhora de Riacho de Santana, e a outra a de Nossa Senhora do Monte Alto, Mãe dos Homens, salvo nos pontos do Sul, onde a Freguesia confinará com os extremos da Fazenda Cajueiro, havemos por bem confirma-la, como pela presente, Nossa Provisão, confirmamos, erigimos e canonicamente instituímos a dita Paroquia na forma do Sagrado Concilio Tridentino, portanto concedemos a dita Paroquia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, novamente creada, dividida, e desmembrada pleno direito, faculdade, para ter Sacrário, em que se conserve o S.S. Sacramento da Eucaristia, para consolação dos Fieis, havendo o necessário ornato, e decência, e tendo rendas suficientes para a conservação da lâmpada acesa, de dia e de noite, pia batismal, Cemitério para sepultura dos paroquianos defuntos, Campanários, Torres e Sinos , e todos os mais direitos, privilégios honras, insígnias, distinções de uma Igreja Paroquial. O Reverendo Pároco respectivo haverá a côngrua anual em conformidade das leis em vigor , a bem dos adquiramentos  da Paroquia, e o que for aplicado a sua Fabrica e participará das oblações matrimoniais, e nos batismos e desobriga da quaresma, nos ofícios, e enterramentos de defuntos, e todos os mais direitos de estola e que por lei estão estabelecidos na respectiva Paroquia de que é desmembrada a referida Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana. E ambos os Reverendos Pároco da dita Freguesia, e da de Nossa Senhora de Monte Alto, Mae dos Homens traçarão a linha divisória das suas Paroquias  de acordo com o disposto na mencionada Lei, e deste seu acordo nos darão parte, para ser por nós ratificados. Esta será publicada em um domingo, ou dia Santo, a estação da Missa Conventual, para que chegue a noticia a todos  da que passará certidão, no verso desta para que todo o tempo constar.

Dado nesta cidade da Baía, sob nosso sinal, e selo das nossas Armas aos quatros dias de outubro de mil oitocentos e sessenta e dois- 1862-. E eu o cônego Manoel Cyrilo Martinho Pinto, Secretario da Câmara subscrevi.

- Manoel Arcebispo da Baía.

 

ANEX0. 04

Provisão de Instituição Canônica da Freguezia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, na Forma Acima Declarada para V.EXCIA.REVDMA. Ver e Assinar

Provisão do Vigário Encomendado da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, a favor do Revdo. Antônio Boa Ventura de Cerqueira Pinto.

Dom Manoel Joaquim da Silveira por Mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica Arcebispo da Baía, Metropolitano e Primaz do Brasil, do conselho de S.M. o Imperador, Comendador da Ordem de Cristo, etc.

A todos os fiéis da nossa Diocese, saúde e bênção, fazemos saber que, atendendo ao que por petição nos enviou o Revdo. Antônio Boa Ventura de Cerqueira Pinto: Havemos por bem do PROVER, como presente Nossa Provisão e provemos  em ocupação de Pároco Encomendado da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário  de Riacho de Santana, desta província, e arcebispado, por tempo de dois anos, se antes não mandarmos o contrario, a qual ocupação  servirá como convenio a serviço de Deus, e santificação das almas dos paroquianos da referida freguezia, administrado-lhos os sacramentos e obedecendo aos de todos os pecados, excecptos dos reservados, atuais, voluntários, concubinatos e ocasiões próximas fazendo estações, ensinando a doutrina chirtan, principalmente aos pequenos, e pessoas rudes que necessitarem do saber e guardando em tudo obrigações do Bom Pastor, cumprindo a residência em a mesma Freguezia, na forma do Sagrado Concilio Tridentino, e constituições deste arcebispo. E lhe encarregamos muito a boa direção das almas dos paroquianos da referida Freguesia, da que dará conta a DEUS Nosso Senhor ; e na dita ocupação haverá a côngrua respectiva em conformidade das leis, e todos os emolamentos prós e procalços, que legitimamente lhes pertencem. Prestará juramento, e tomará posse na forma do estilo. E mandamos em virtude da San obedencia, e debaixo das penas, que  nos parecem necessárias a todos os paroquianos da dita freguesia reconheçam ao mesmo Revdo. Antônio Boaventura Cerqueira Pinto por seu Pároco e como tal, o estimem, obedecem, e bem tratem em tudo quanto são obrigados. E para que esta inteiramente se observe, a publicar em primeiro Domingo, ou dia festivo a seus Paroquianos.

Dado nesta cidade da Baía, sob nosso sinal, e selos das nossas Armas, aos seis de outubro de 1862. Eu Raymundo Barroso de Souza, subscrevi.

ANEXO. 05- TERMO DE POSSE

Aos vinte e cinco dias do mês de Dezembro do ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo, de mil oitocentos e sessenta e dois, neste Arraial do Riacho de Santana, e freguesia de Nossa Senhora do Rosário, em Igreja Matriz dela, tendo se achado presente o Revmo. Senhor Vigário Geral da Comarca de Caetité Manoel José Gonçalves Fraga, comigo O Escrivão de Paz, adiante nomeado aí presente o Revdo. Antônio Boa Ventura de Cerqueira Pinto, apresentado a sua provisão pela qual havia sido nomeado Vigário Encomendador da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Riacho de Santana, pelo Exmo. e Revemo. Senhor Arcebispo, Metropolitano, da Baía Dom Manoel Joaquim da Silveira, houve o dito Ministro, de definir o juramento dos santos  Evangelhos, em o qual pondo a sua mão direita, em um livro deles prometeu bem e fielmente desempenhar as obrigações a seu cargo, seguindo em tudo o que recomenda a constituição do Arcebispo da Baía, ficando assim, empossado no dito cargo de Vigário Encomendador : do que para constar, lavrei o presente termo de posse, em que assinou o dito ministro, e o juramento. E eu Gabriel Guimaraes Silva, Escrivão de Paz, que o escrevi. Seguem-se as assinaturas dos envolvidos no termo {...}

 

ANEXO. 06

Resolução Nº 871 de 12 de Dezembro de 1861

José Augusto Chaves, vice presidente da Bahia.

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembleia Legislativa Provincial Decretou e eu sancionei a Resolução seguinte:

Art.1º. Fica ereta em freguesia a capela de Nossa Senhora do Rosário do Riacho de Santana, ora filial da Freguesia de Nossa Senhora de Monte Alto, Mae dos Homens.

Art.2º. Os limites da Nova Freguezia serão os mesmos do Distrito, salvo nos pontos Sul, onde confinara com os extremos com a Fazenda Cajueiro.

Art.3º. Revogam-se as disposições em contrário.

Mando, portanto, a todas as Autoridades, a quem o conhecimento, e execução da referida Resolução pertencer que façam cumprir, tão inteiramente como nele se consta;

O Secretario desta Província a faça imprimir, publicar e correr.

Palácio do governo da Bahia,12 de Dezembro de 1861.

José Augusto Chaves.

Observação: os documentos acima mencionados foram transcritos literalmente por José Farias Boa Sorte, dos originais que se encontram arquivados na Diocese de Caetité. Presentes no livro:  Riacho de Santana Seu passado, sua história, Reminiscências de uma história singular- José Boa Sorte Farias- Feira de Santana, 2010.

 

 

ANEXO:07


Foto: Monsenhor Tobias (sentado) e outro Padre, não sabemos o nome. Ano: antes do ano 1906, quando morreu. Fonte: D. Marilú Castro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto: Do altar Mor, festa da padroeira- canto das flores (1953) Fonte: Arquivo pessoal de D. Marilú castro.



[1] Localização: Está localizado na zona Fisiográfica do Médio São Francisco, totalmente incluído no “polígono das secas”. Limite com os municípios de Palmas de Monte Alto, Macaúbas,  Igaporã, Matina  e Bom Jesus da Lapa; distante da capital Salvador: 464 Km em linha reta.

[2] Sobre os arraiais constituídos pelo patrimônio religioso das capelas em Minas Gerais, ver os estudos de

MARX, Murilo. Nosso chão...op.cit. e MATA, Sérgio da. Chão de Deus...op. cit.

[3] Levi relata ainda que “A micro história como uma prática é essencialmente baseada na redução da escala de observação, em uma análise microscópica e em um estudo intensivo do material documental [...] não é simplesmente uma questão de chamar a atenção para as causas e os efeitos de fato, de dimensões diferentes coexistirem em cada sistema social; em outras palavras, o problema de descrever vastas estruturas sociais complexas sem perder a visão da escala do espaço social de cada indivíduo, e a partir daí, do povo e da sua situação de vida (2000, pg. 136-137).

[4] A mineração, ao promover a ocupações dos sertões do Brasil, estimulou a abertura de vias de comunicação e interligou todas as regiões ocupadas numa teia de corredores de circulação, quase sempre precários (NEVES, 2007, p.20)

[5] Em 1861, a Resolução Provincial número 871, de 12 de setembro, elevou a Capela Nossa Senhora do Rosário, filial da freguesia de Nossa Senhora Mãe dos Homens de Monte Alto, á categoria de freguesia, sendo canonizada pelo arcebispo D. Manoel Joaquim da Silva, conde de São Salvador. Seu primeiro vigário foi o Padre Antônio Boaventura de Cerqueira Pinto.

Dezessete anos depois foi o arraial de Riacho de Santana foi elevado à categoria de vila pela Lei Provincial 1826, de 13 de agosto de 1878, que também criou o município do mesmo nome, com território desmembrado de Monte Alto, sendo inaugurado em 19 de abril de 1879.

In: Enciclopédia dos municípios brasileiros XXI volume, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Planejada e orientada por Jurandir Pires Ferreira- Presidente do IBGE.

[6] No arraial de Bonito (Igaporã) de acordo com NEVES (1998 pag.27) houve um caso parecido com esse, em 1840 o Capitão Filipe Joaquim de Azevedo Cotrim e sua mulher Maria Clara de São Jose, doaram um terreno com 220 braças de largura e 600 de comprimento, no valor de 200 cruzados, a nossa Senhora do Livramento, para a construção de uma capela no local. Esse terreno se destina-se a gerar rendimentos com aforamentos de lotes para construção de moradias. Mas não surtiu os efeitos desejados: os ocupantes deixaram de pagar arrendamentos; há o documento da doação transcrito no seu livro.

[7] SILVA, Fabiano Gomes, PEDRA E CAL: OS CONSTRUTORES DE VILA RICA NO SÉCULO XVIII (1730-1800) Belo Horizonte (MG) Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG 2007. P.30

[8] O culto a Nossa Senhora segundo Azzi (2001, p.66), é um dos mais “arraigados na tradição popular desde o início da colonização Lusa, continuou ocupando lugar de destaque na Bahia, expresso através de diversas denominações.

[9] Padre Italiano que veio para a cidade em 1975, conhecido em toda a região pelos seus trabalhos sacerdotais e filantrópicos à população mais pobre, faleceu em 1998 de acidente automobilístico.

[10] Foi um homem que tinha um conhecimento profundo da história da cidade, faleceu em 2002.

[11] Entrevista feita por Padre Aldo e João de D. Lurdes com Senhor Deocleciano Castro (1997).

[12] Prefeito da cidade por cinco mandatos, 1989-92, 1996-2004, 2009 até atualidade, teve muitos desentendimentos com o Padre Aldo.

[13] Entrevista feita por Padre Aldo e João de D. Lurdes com Senhor Deocleciano Castro (1997).

[14] Segundo Padre Aldo Luccheta, o Padre José Maria Vicente recebeu essa taxa até o ano de 1936, não sabemos o porquê parou de receber.

[15] Filólogos contemporâneos,  como Antônio Geraldo  da Cunha, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Antônio Houaiss,  também atribuem étimo controvertido ou obscuro a essa expressão, que deriva do vocábulo latino desertanu-, de genealogia pouco conhecida. Para todos significa região agreste, despovoada, lugar recôndito, distante do litoral, mas não necessariamente árido; terra e povoação do interior; enfim, interior do Brasil (NEVES, pagina 9)

[16] Segundo Simony Oliveira Lima em seu trabalho sobre liberdade de escravos na região do médio São Francisco, O Vigário José de Sousa Lima assume a coordenação da Matriz de São José de Carinhanha e localidades adjacentes a parti de 1836, em substituição ao vigário Delfino Maxado: (Livro de registro de batismo Nº 3. Freguesia-paroquia São José de Carinhanha, data limite: 1833-1845).

[17] A Guarda Nacional foi uma força paramilitar organizada por lei no Brasil durante o período regencial, em agosto de 1831, para servir de "sentinela da constituição jurada", e desmobilizada em setembro de 1922. No ato de sua criação lia-se: "Com a criação da Guarda Nacional foram extintos os antigos corpos de milícias, as ordenanças e as guardas municipais."1 Em 1850 a Guarda Nacional foi reorganizada e manteve suas competências subordinadas ao ministro da Justiça e aos presidentes de província. Em 1873 ocorreu nova reforma que diminuiu a importância da instituição em relação ao Exército Brasileiro. Com o advento da República a Guarda Nacional foi transferida em 1892 para o Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Em 1918 passou a Guarda Nacional a ser subordinada a

uma milícia que fez várias revoluções luso-brasileiras.

[18] Capitão-mor era a designação para cada um dos oficiais militares, responsáveis pelo comando das tropas de Ordenança em cada cidade, vila ou concelho de Portugal, entre os séculos XVI e XIX. A designação foi também aplicada a outras funções militares e administrativas na Marinha e no Ultramar Português.

[19] É sabido que no século XIX, o sertão baiano viveu grandes estiagens, levando a morte várias pessoas.  No quinquênio 1887-1891, em proporções aproximadas as do período 1857-1881. (NEVES, 1998, p.205).

[20] Considerando a historiografia atual brasileira, percebemos que, apesar de existirem vários estudos sobre o tema escravidão, ainda é consideravelmente pequeno o número de produções que analisam a família escrava na região alto sertaneja, sobretudo na Freguesia de Riacho de Santana. Pesquisas recentes tratam esta temática, como é o caso dos trabalhos da historiadora Maria de Fátima Novaes Pires, que aborda o alto sertão da Bahia no oitocentos. Ainda contemplando essa região, a pesquisadora Gabriela Amorim Nogueira apresenta reflexões sobre famílias escravas para o Certam de Sima do Sam Francisco, no século XVIII. Destaco também o trabalho da historiadora Napoliana Pereira Santana, que enfoca a família e microeconomia escava no Sertão do São Francisco (Urubu – Ba) no período de 1840 a 1880, e ainda, Fernanda Ferreira Dias, que escreve acerca das relações de compadrio constituídas por escravos na Freguesia Santana de Caetité de 1827 a 1831.

[21] Nota-se que a Igreja está inacabada, precisando de ajustes no interior. É perceptível a participação de trabalho escravo na obra, porém não há dados quantitativos para saber quantos foram, provavelmente muitos. Enfatizamos que a Lei Áurea é do ano de 1888, nesse contexto, portanto, teoricamente havia escravos e a abolição não foi imediata no sertão; foi constado por historiadores a presença significantes de escravos em algumas fazendas da freguesia. Martiniano Pereira, era apenas um de tantos donos de escravos do arraial, por exemplo, o Capitão Mor José Ribeiro de Magalhães possuía mais de duas fazendas com escravos.

[22] Atas do Apostolado de 1845.

[23] Não foi encontrado em dicionários o significado da palavra (ficas), mas pelo contexto deduzimos que fosse dinheiro ou esmolas.

[24] Atas do Apostolado,  setembro de 1851.

[25] Quadro, Painel que enfeita o altar.

 

[26] Existe um local próximo ao Sitio são Felix que se chama “descanso de nossa Senhora”,  reza a lenda que foi o local  onde o condutor descansou.

[27] Lembramos que no ano de 1861 pela resolução número 871 a Capela muda de orago para Nossa Senhora do Rosário, e portanto é como ela vai ser chamada até 1906.

[28] Hoje é a cidade de Condeúba cerca de 200 Km de Riacho de Santana.

[29] Atas do Apostola 14 de junho 1863.

[30] De acordo com Licurgo Santos Filho (1956, p. 227): “Vaca de matalotagem” e “boi de matalotagem” significam no norte e nordeste do pais- o animal para fornecer a carne de alimentação dos indivíduos que estejam em viagem ou afastados de seus parentes”.

[31] Atas do Apostolado,  14 de junho de 1865.

[32] A última reunião marcada nas Atas foi em um dia de domingo de pascoa, 1º de abril de 1866, antes dessa houve outra em 2 de fevereiro, que por falta de pessoas foi remarcada para esta data.

 

[33]  Transcrito do livro:  Riacho de Santana Seu passado , sua história, Reminiscências de uma história singular- José Boa Sorte Farias- Feira de Santana, 2010;  p.33.

 

[34]  Transcrito do livro:  Riacho de Santana Seu passado, sua história, Reminiscências de uma história singular- José Boa Sorte Farias- Feira de Santana, 2010, p.35.

[35] Não encontramos muitas notícias da vida do Padre Antônio, há apenas uma informação, que em 1868 ele foi para a Paróquia Boa Vista de Tremedal ficando lá até 1871.

[36] FIGUREDO, Alan José. Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas. Macaúbas Ba, 2001.

[37] [...] mas uma ciência a reboque dos documentos que pretende eliminar toda a forma de subjetivismo: “ O melhor dos historiadores é aquele que se escreve e nem mesmo pensa a não ser a partir deles.”(Fustel de Coulanges, La manarchie franque. 1888; p.32 e 33)

[38] O Padre Tobias participou ativamente da política, foi Intendente Municipal e deputado; com o tempo com o título de Monsenhor.  Em 1906 veio a falecer com 49 anos de idade em sua casa localizada na Fazenda Invernada, a causa da morte é duvidosa pois há duas versões: Envenenamento; de acordo com fontes orais ele estava vindo de Bom Jesus da Lapa parou para descansar em uma casa à beira da estrada na comunidade de Cara-suja e foi oferecida uma limonada com veneno. A outra versão é que ele tinha úlcera, segundo a medicina da época quem tem essa doença, as pessoas devem evitar digerir e beber certos alimentos como a limonada. Não sabemos se foi a “limonada” a responsável, O fato é que ele morreu diagnosticado com essa doença.

[39]   Transcrito do livro:  Riacho de Santana Seu passado, sua história, Reminiscências de uma história singular- José Boa Sorte Farias. Feira de Santana, 2010;  p.34.

 

[40] Um cargo comum da igreja, uma pessoa que cuidava das finanças da instituição.

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